2 de maio de 2011

No tom da elegância

Numa reunião de estudo da Doutrina Espírita, o dirigente, ao falar sobre reforma íntima, sugeriu que pensássemos, numa proposta de mudança de comportamento e de postura, por onde cada um de nós gostaria de começar. Foi uma fala rápida, dentro de um contexto maior, mas, em pensamento fiquei parada na minha resposta, que seria imediata: quero aprender a falar baixo.

Tenho dezenas de outros defeitos de fábrica, limitações, deficiências menores, que precisaria também incluir na lista de melhoras a promover em mim, mas atualmente, a que mais me incomoda é não saber falar baixo. Não sei mesmo; não é só uma questão de reeducação. Já tentei ser elegante inúmeras vezes, mas meus resultados são pífios. Nenhuma tentativa se aproxima do mínimo ideal.

Na sala onde trabalho havia uma estagiária que periodicamente fazia um trabalho de telemarketing. Ela executava sua tarefa num ambiente com mais doze pessoas, falava ao telefone o dia inteiro e nem mesmo o funcionário que sentava em frente conseguia ouvir o que ela dizia. Só víamos seus lábios se movimentarem, quando muito um sussurro. E não sei até hoje como ela se fazia ouvir pelo interlocutor, do outro lado da linha. E eu me roía de inveja por não chegar nem perto daquela habilidade. Todas as vezes que tento baixar o tom de voz ao telefone, ouço a mesma coisa: “hein?”, “não ouvi”, “fala mais alto!”. E aí, sou obrigada a usar minha voz normal, ou seja, quase gritante.

Como não quero admitir um caso claro de falta de educação, prefiro pensar que o problema seja genético. Todos na minha família falam alto. Riem alto também. Quando nos juntávamos, tempos atrás, era hilário. Todos falando ao mesmo tempo; imagine a estupefação, para quem ouvia de longe. Loucura, loucura. Outro argumento ao qual costumo recorrer para me desculpar é o trabalho. Passei por redações de jornal e TV, onde só ouvíamos uns aos outros em alto e bom som. Eram televisões ligadas, rádios, telefones tocando e gente falando, tudo ao mesmo tempo. Hoje, felizmente, isso já melhorou muito, mas quem conheceu as redações na mesma época, sabe o que estou dizendo.

E sou crítica, muito crítica a respeito. Se há uma situação que não tolero, por exemplo, é gente falando alto em restaurante. Sozinha ou acompanhada, quando estou num local desse, aprecio a paz e o sossego, no máximo os ruídos comuns ao local. Vozerio alto não dá. E ainda há aqueles que dão seus shows ao telefone, quando usam aquele aparelho que também é rádio. É de tirar o apetite. Quanto aos grupos, nem preciso me estender muito. Dia desses estava num restaurante com meu marido, quando duas enormes mesas foram ocupadas por jovens que, aparentemente, acabavam de sair de uma igreja. Pareciam que voltavam de uma festa, na qual teriam bebido além da conta. Claro que não pude conversar, pois precisaria gritar também.

Ainda tenho esperanças de um dia conseguir falar com elegância e ser ouvida. Como já disse, toda vez que tento falar baixo não me escutam. Creio que se retomar meus exercícios fonoaudiológicos dos tempos de trabalho na TV posso alcançar algum resultado. Foram necessários muitos dias de leitura em voz alta à frente do espelho, com uma rolha presa aos dentes, ou uma caneta atravessada, para reduzir o tom agudo e estridente, que atrapalhava a modulação do operador de áudio. Pode ser divertido tentar tudo isso de novo. Preciso arrumar tempo para esse primeiro passo da minha reforma íntima.
.

5 comentários:

Priscilla Eller disse...

ADOREI o texto. Eu tenho esse 'problema' que talvez não chamaria assim, nunca tinha pensado por esse lado porque também sempre coloquei a culpa na "GENÉTICA" essa mistura de origens nordestina, aquela falação, família grande, um quer falar mais alto que o outro pra ser ouvido. E minhas amigas estão sempre chamando minha atenção "Priscilla tá falando assim porque? Ninguém precisa ouvir" ainda mais nas situações que estou contando casos, me empolgo e quando vejo tô eu lá com meu MEGA FONE haha. Mas, isso não me incomoda, é uma característica já adotada e respeitada por quem me conhece, RS! BOA SORTE, quem sabe um dia chego lá. Beijos!

Fernando de Barros disse...

Giovana
Realmente fazer qualquer refeição com barulho ao lado não é facil, ainda mais se for em um local fechado.
O que acho mais curioso em restaurantes e que além das pessoas falarem mais alto que o normal, sempre há uma televisão ligada, mostrando um programa que nunca dá para ouvir nada.
É fogo!

Giovana Damaceno disse...

Recebi por email da minha amiga Elaine Bertone:
"Giovana... simplesmente não consigo deixar um comentário no seu blog, porque a página fecha, antes que eu o faça. Deve ser algum problema de configuração do meu not.
Mas, gostei muito do seu último texto. Me identifiquei com ele, porque falar baixo também é o meu maior desafio. Sou filha de italianos que cotidianamente falam alto, quando se reúnem.
Confesso que também me policio com relação às situações mais diversas, seja no telefone, no restaurante ou num bate-papo informal com alguém...
Se quiser postar o meu comentário por mim, está autorizada.
bjs
Elaine"

c i n t i a disse...

Eu acho lindo quem fala baixo, mas dizem que quem fala muito baixo é uma pessoa perigosa... Eu já tive exemplos de algumas que falavam baixinho e na verdade eram verdadeiras víboras! Rsrsrsr!
Lá em casa tenho que competir com minha irmã, mas ela fala beeem mais alto que todos nós e quando estamos conversando parece que tem dez pessoas em volta. Aí qdo ela vai embora fica aquela calma, aquele silêncio! Rsrsrrsr!

(Ah, eu não acho que vc fala alto, é que sua voz é aguda e acho que isso dá essa impressão.)

Carol Cunha disse...

Ha ha ha ha ha pegue a senha, minha querida madrastinha!!Tô nessa luta tb. E que luta!!! Além de alto falo ultra power rápido!! TODOS, sem exceção, me ORDENAM para falar mais devagar. Falo sem respirar... Afff!!! Meu grande pedido de 2011 foi exatamente esse... Ser menos efusiva! A questão é que não temos a exata dimensão do quão grave é esse defeito até nos deparamos com ele, na condição de ouvintes. Meu antigo celular gravava, sem minha ciência, algumas de minhas ligações. Pois bem, quando descobri isso, cliquei para ouvi-las e minha vontade foi de chorar, de me esconder do mundo, de tanta vergonha do meu hábito grosseiro. A conversa se deu entre mim e meu irmão, mas bem que poderia ter sido só entre mim e eu mesma, já que só minha voz aparecia. Meu irmão "estava" longe longe!! Isso sem considerar que somente ao ouvir a gravação pude perceber que ele havia me dito algo que na ocasião nem me dei conta. Claro, tava berrando!!! QUE MEDO!!! Minha explicação (e defesa) é só uma: Acho que sou um pouco surda. Mas não estou me aliviando não!!! Todo castigo é pouco para para essa espécie barulhenta!!!