21 de março de 2011

As várias máscaras de Fernando Pessoa

Aproveito o Dia da Poesia para pegar carona na minha própria crônica "A armadura nossa de cada dia" e falar de Fernando Pessoa.

A revista Época publicou matéria semana passada sobre a biografia do poeta, escrita pelo advogado José Paulo Cavalcanti, que trata, claro, das várias máscaras que Pessoa usou ao longo de sua vida.

Abaixo, a reprodução de parte da matéria:

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Pessoa por trás das máscaras

Fernando Pessoa ocultou a identidade em seus versos.
Uma nova biografia revela as dúvidas e
a sexualidade do poeta português


Por Norma Curi
 
Criador de identidades imaginárias e de duplos, o poeta português Fernando Pessoa (1888-1935) deixou aos leitores uma obra repleta de armadilhas e pistas falsas sobre sua verdadeira personalidade. A maioria dos estudiosos contenta-se em submergir no mundo de fantasmas inventado pelo autor e decifrar os fascinantes segredos de Alberto Caeiro, Ricardo Reis, Álvaro de Campos, Bernardo Soares e outros de seus 127 heterônimos.

O advogado pernambucano José Paulo Cavalcanti, de 62 anos, preferiu a realidade. Há sete anos, persegue rastros de Pessoa correndo atrás das 31 moradas, 30 escritórios e inúmeras tabacarias frequentadas pelo escritor. Não perdeu um leilão em que uma carta de Pessoa estivesse à venda. Percorreu alfarrabistas em busca de edições raras e livros sobre sua obsessão. “Só num deles comprei de uma vez € 10 mil em livros”, diz. Por outros € 10 mil, levou a coleção de selos do poeta. Montou em casa um minimuseu dedicado a Pessoa, alterou a rotina acordando às 3 horas da manhã para escrever até as 7 e contratou peritos para analisar minúcias da vida do poeta, como o grau de seus óculos, e a causa de sua morte (pancreatite, segundo Cavalcanti, e não cirrose). Ao final de sua empreitada, decidiu compartilhar os resultados de sua pesquisa com o público. Os objetos colecionados estão na exposição de Pessoa no Centro Cultural Correios do Rio de Janeiro, que começa nesta semana. Na abertura, na quinta-feira 24, Cavalcanti lança a mais completa biografia do poeta, Fernando Pessoa, uma quase autobiografia (Record, 750 páginas, R$ 79,90).

Na exposição, os nomes de José Paulo Cavalcanti e sua mulher, Lecticia, aparecem em letras miúdas ao lado de artigos como um bico de pena de Pessoa feito pelo amigo Almada Negreiros no dia do enterro do poeta, uma serigrafia tecida pelo artista Julio Pomar e a primeira e única edição em português publicada em vida (Mensagem, de 1934). Há também o poema “Antinous”, sobre a relação sexual do escravo homônimo com o imperador Adriano, publicado em inglês em 1918 à custa do autor, além de todas as revistas em que o poeta colaborou, dos manifestos que escreveu e do último livro que levava no bolso do pijama para o hospital São Luís dos Franceses, onde morreu em 30 de novembro de 1935 – Sonetos escolhidos, de Bocage.

Assim como Pessoa, Cavalcanti tem uma personalidade multifacetada. Especializado em Direito da Comunicação, é um dos maiores juristas pernambucanos. Estudou na Universidade Harvard, nos Estados Unidos, publicou 18 livros jurídicos, foi ministro da Justiça do governo Sarney, é membro da Academia Pernambucana de Letras, leitor inveterado, pintor nas horas vagas e músico com vários discos gravados, entre eles um duo com o famoso pianista Arthur Moreira Lima. “Ele toca piano com a mão direita, eu, com a esquerda”, diz Cavalcanti. Em meio a sua rotina cheia de atividades, escreveu parte do livro de frente para o mar, gastando por semana uma caneta Pilot V7 comprada em Lisboa, no verso de cópias dos processos de seu escritório. O resto, completou na copa da casa de Piedade, no Recife, onde a papelada multiplicava-se pela pia, pelo fogão e pela geladeira, enquanto obras de Bach no fone de ouvido o mantinham a salvo das interrupções.

Segundo biógrafo, Pessoa escondia sua homossexualidade
e tinha vergonha do próprio corpo

Cavalcanti não se intimidou quando, ao começar suas pesquisas, deparou com uma lista de 5.500 livros sobre Pessoa. Diz ter lido 1.000 e saído a campo para encontrar a tabacaria Havaneza da Rua dos Retrozeiros, que inspirou o famoso poema “Tabacaria”. Ali o poeta comprava cigarros Provisórios, Definitivos ou os preferidos Bons. Quando o amigo Mário Sá-Carneiro (1890-1916) vinha a Lisboa, experimentava a Mônaco e as Tabacarias Costa e Inglesa. Frequentador de botecos, nunca voltava para casa sem bater ponto nesses estabelecimentos, pedindo “dois , oito e seis” – um código que Cavalcanti decifrou: “Dois tostões para a caixa de fósforos, oito para o maço de cigarros Bons e seis para o cálice de Macieira”. Em jejum no balcão, fazia em gestos o número sete – “sete tostões, um copo de vinho”. Na hora do almoço, um bife. À noite, tomava sopa no restaurante Martinho da Arcada. O proprietário, Mourão, costumava enfiar um ovo no prato à revelia do cliente, que achava muito frágil. Lá, Pessoa escreveu a maior parte dos poemas.
 
Obsessão
O advogado José Paulo Cavalcanti levou 20 anos
levantando fontes inéditas de Fernando Pessoa

Um dos aspectos da personalidade de Pessoa desvendados por Cavalcanti é sua vaidade. “Os cobradores viviam na porta da casa dele, mas ele continuava a se vestir no melhor alfaiate”, diz. “A vaidade era tanta que ele driblava com óculos de 3 graus a prescrição do oculista para 12 de miopia.” Para enxergar o mundo à maneira de Pessoa, Cavalcanti deu a um oculista a missão de torná-lo míope de 12 graus com várias lentes e colocou óculos de 3 graus por cima delas. “É um horror. Ele preferia a vida turva a ficar com o olho aumentado pelas lentes grossas.”

O livro também expõe detalhes sobre a visão de mundo (leia as sete regras de vida abaixo) e a sexualidade do poeta. Em seus textos, ele insinua a homossexualidade de Alberto Caeiro, Ricardo Reis, Bernardo Soares e cria um Álvaro de Campos homossexual assumido (“Olha Daisy, quando eu morrer tu hás de... contar àquele pobre rapazito/que me deu horas tão felizes”) . Antonio Botto, amigo de Pessoa que morreu atropelado no Rio nos anos 50, contou ao escritor Jorge de Sena que Pessoa “olhava de certa maneira para os rapazinhos”. Também revelou ter ficado assustado com o tamanho diminuto do pênis de Pessoa. Em suas supostas comunicações mediúnicas, Pessoa escrevia como Wardour, “homem envergonhado com clitóris em vez de pênis”. “É provável que nunca quisesse se expor, acreditando ser homossexual até os 30 anos”, diz Cavalcanti. O poeta tinha horror à flacidez de seu corpo: “Tenho um corpo tão feio, um focinho envergonhado que ofende a humanidade (referia-se ao nariz) . Meu corpo é um abismo entre eu e eu. O criador do espelho envenenou a alma humana”. Outra aflição eram as dívidas. Precisava de dinheiro, a ponto de não ir à entrega de um dos poucos concursos que ganhou. Explicou o motivo em poemas: “Pobre do que perdeu o lugar oferecido por não ter casaco limpo com que aparecesse”.


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Colaboração: Fernando Barros
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