11 de fevereiro de 2011

Referência é responsabilidade

Aconteceu duas vezes com a mesma pessoa. Num primeiro encontro ela me ouviu dizer que não como carne vermelha, que não vou a churrasco, que não sou radical, mas evito as suculentas e saborosas partes bovinas, por motivos vários. Meses depois, ela me encontra no restaurante: “Sabe que por sua causa também parei de comer carne vermelha?” Eu disse: “Que bom, parabéns, decisão inteligente e saudável!”. Há poucos dias, novamente no restaurante, ela veio à minha mesa: “Giovana, que legal, você tem um blog, né? Seus textos são ótimos, adoro ler todos! Pena que o horário de almoço é curtinho, quase não dá tempo!”. E eu, surpresa, agradeci. Aliás, sempre fico surpresa quando alguém me para pra dizer que lê meu blog e adora meus textos. Não me acostumo com isso.

Bom, retomando, após o encontro com a colega do trabalho (ah, ela é colega do trabalho, não havia explicado isso) fiquei encasquetada com esta coisa de ser referência. A idade e as experiências de vida e profissionais nos legam, digamos, seguidores. Não que me envaideça disso, ao contrário, tenho pensado permanentemente na grande responsabilidade que é dizer coisas às pessoas, no quanto pode ser proveitoso, produtivo e divertido para algumas delas, e no quanto pode ser destruidor para outras. Na verdade, é quase impossível saber de que forma atingimos um leitor, se fazendo um afago na cabeça ou cravando uma faca no peito. E, confesso, tal dúvida, para quem escreve, chega a ser apavorante.

Tive (e ainda tenho) uma experiência sensacional com os textos que fiz quando me tratava do câncer de mama. Desde a descoberta da doença, logo nas primeiras semanas, decidi que escreveria a respeito, enquanto e quando pudesse. Era uma necessidade falar sobre o que estava acontecendo comigo, um desabafo, que por escrito, pra mim, costuma sair mais fácil. Ao mesmo tempo, sentia que era uma obrigação (ou missão, talvez) dizer às pessoas que tudo aquilo era humano, que qualquer mortal poderia estar no meu lugar, e que fé, força, confiança podem, sim, salvar vidas. E por último, mas não menos importante, estava implorando apoio, companhia, conforto, mesmo que virtualmente.

Quem não passou por experiência marcante como essa pode não compreender exatamente o que digo, mas me surpreendo até hoje com as lembranças dos tantos carinhos que recebi, das dezenas de pessoas que me relataram como e de que forma oraram junto comigo na hora da minha cirurgia. Porém, enorme surpresa eu tive (e tenho ainda) com outras tantas pessoas, amigas ou não, que me procuraram pra contar o quanto eu as havia ajudado com meus relatos sobre quimioterapia, cirurgia, radioterapia, enjoos, dores, depressão, ‘carequice’. Não busquei tal retorno, mas recebi e me sinto muitíssimo grata por saber que a doença grave que me acometeu pôde, de alguma forma, ajudar alguém. (Deus escreve certo por linhas tortas, não é?).

E hoje recebi uma carta. Não considero a remetente uma leitora, simples assim, mas antes uma colega de trabalho, a quem respeito e admiro. Por um deslize dela, que não percebeu o erro de uma outra pessoa, algo saiu errado em um texto meu, e o resultado do equívoco veio a público num tropeço gramatical ridículo. “Fiquei horas emudecida e quando ‘me pensava’ no seu lugar o sentimento era muito, muito ruim”, ela me confessou, enquanto eu ia lendo, lendo, lendo, estarrecida com tamanha e tão sentida explicação. Dias atrás já havia recebido uma outra mensagem, com pedido de perdão explícito, escancarado, também muito sentido, de outra pessoa da equipe. Claro que o tal erro me deixou p* da vida quando vi, mas passou. Esbravejei, chiei, reclamei, mas foi por um dia. Acabou.

Não, não acabou. A carta e todo o restante do conteúdo que veio junto me esfregaram na cara o quanto aquelas pessoas me admiram, me respeitam e se sentem péssimas até hoje. Estou ainda em choque com o que li, sem sequer conseguir responder. E mais uma vez me lembrei da tal referência, do quanto podemos cativar as pessoas, do quanto podemos conquistar de admiração e, fundamental, da enorme responsabilidade que advém de tudo isso. “Tu te tornas eternamente responsável por aquele que cativas”, disse Saint- Exupéry em O pequeno príncipe, e cada vez mais me convenço da verdade implícita em tão simples frase.

Digo a meus amigos, leitores, admiradores que precisarei de algumas encarnações à frente para agradecer o que prefiro chamar de parceria. Não quero ser exemplo, nem referência; ainda sou um espírito muito ralé para tanto. Não existem erros imperdoáveis. Tudo passa, assim como nós passamos.
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5 comentários:

Simone Couto Kaplan disse...

Você pode até passar, mas o que escreve fica.

Eu gosto muito de vir aqui e te ler. Vc tem muito pra dividir. Quem quer, aprende. Eu quero.

Um beijo carinhoso,
simone

Guará disse...

Giovana, eu não leio sempre seu blog, mas gosto do seu jeito de "falar". Pessoalmente, acredito que só a vi uma vez, mas tanta gente, que conheço e gosto, gosta de você que passei a gostar por tabela. Confuso?
Pois é, às vezes mesmo de longe nos tornamos boas referencias e penso que quando nos damos conta disto assumimos a responsabilidade de querer ser melhor, um pouco, a cada dia.
Eu tenho uma penca de referencias, não gurus. Pessoas que por uma frase, um gesto, uma idéia, um alento me deixam melhor do que estava. Você faz isto! Bjs

GIL ROSZA disse...

Muito sério isso. Uma “referência” às vezes pode se tornar de repente, refém das próprias virtudes, sendo negado a elas o direito à liberdade de cometer em paz os próprios equívocos ou a mudar de opinião sempre que for necessário. Alguns que publicam suas opiniões às vezes receiam que numa época tão ávida por followings e followers, haja uma certa acomodação de se pensar opiniões de forma crítica e o “cada cabeça uma sentença” seja substituído pelo “poupe seus neurônios e use os de quem você anda seguindo”. Mas talvez isso que falei seja só uma grande bobagem que não deva ser levada assim tão a sério.

Calino disse...

Ao contrário do que disse minha amiga Guará (é a abreviatura de Guaraciara), conheço, já trabalhamos em parceia e privo da amizade da Giovana há muito tempo. (Certamente gosto muito mais dela do que ela de mim), e por isso lhe aconselho Guará, a sempre ler o que a Gigi escreve.
Beijocas virtuais nas duas.
Calino

Carol Cunha disse...

A arte revela!! Meu irmão sempre diz isso e ele está certo. Através do blog e dos seus textos vc revela o que há em vc, em seu coração. E mais que isso. Vc tb afeta outras pessoas. Comove, provoca, influencia... A responsabilidade é imensa e assusta!! Certa vez, estava em minha mesa de trabalho meio angustiada, meio estressada, quando entrou uma mulher... Como minha secretária logo se dispôs a atendê-la, nem vi direito quem era. Mas a mulher caminhou até mim, pediu para se sentar e me disse: "Jamais ou me esquecer da senhora!! Quando estive aqui há um tempo atrás estava deprimida, feia, acabada e após uma boa conversa a senhora me disse para me erguer, levantar a cabeça, lutar... enfim, foi uma conversa longa, cheia de detalhes, mas, o fato é que mudei. Olha só!". E fiquei ali, olhando aquela mulher... rastreando suas feições, quando de repente... me assustei!! Lembrei dela!!! Meu Deus!!! Ela estava completamente mudada!! Bonita, bem vestida, até mais alta!!! Era outra mulher!! E ela ficou mais feliz ainda por perceber que eu nem a tinha reconhecido.

Neste dia foi ela quem me salvou e mudou meu dia!!!