17 de fevereiro de 2011

Escolas não ensinam a pensar

A ajudante de ordens lá de casa chegou atrasada dia desses. Entrou esbaforida pedindo mil desculpas, mas “estava correndo atrás de escola pro meu filho; tô vindo de Pinheiral”. Detalhe: ela mora em Barra Mansa. Por motivos que a gente sempre desconhece, o mais velho dela, de 13 anos, não teve vaga em escola pública próxima e a mãe, desesperada, tenta matriculá-lo em qualquer lugar. Outro detalhe: já estamos aos 17 dias do mês de fevereiro. Se você, leitor, puxar na memória, vai se lembrar de caso semelhante com algum conhecido seu, invariavelmente das camadas mais carentes da sociedade. Digo carente não só de dinheiro, mas de informação e cultura. Este nó é tão antigo que já virou uma trança.

E é exatamente o que meu filho, também de 13 anos, comentou a respeito. “Isso parece que não acaba nunca, né? A mãe teve pouco acesso è educação, não valoriza adequadamente a escola, por isso não sabe como fazer. O filho cresce neste ambiente e vai ser igual ou pior que a mãe. É raro alguém que se livra deste rodamoinmho”. E eu completei: “Assim caminha a humanidade”.

É exaustivo o que se fala de educação neste país, o que ouvimos de todo o tipo de gente sobre o assunto. Não há um ser pensante a nossa volta que não tenha um pitaco a dar sobre educação no Brasil, mas, consultemos nossas consciências: o que pensamos ser educação? Que tipo de educação o ser humano precisa? Que estrutura o sistema educacional deveria ter para oferecer a todos, sem exceção? Seriam mais escolas? Mais cadeiras para os alunos se sentarem? Mais livros? Mais professores? Melhores salários para os profissionais?

Não sou o que poderíamos chamar de educadora, não possuo tanta vivência na área para opinar com fundamentação, mas a experiência, a convivência com pessoas, a observação diária me dão instrumentos para este... desabafo. Não estamos na roça, nos confins rurais deste país. Estamos na região Sudeste, no que aprendemos a chamar de eixo Rio-São Paulo, os governantes da minha cidade se gabam de um monte de feitos, os da cidade ao lado idem. E a mãe de um garoto de 13 anos peregrina em busca de escola? Infelizmente, embora estejamos no século 21, fatos como esse me cheiram a podre. A incoerência com que é tratada a educação é visível, escandalosa, assutadora, e ainda vemos políticos bradando por “mais escolas!”.

Mais escolas, sim, mas quem é que vai estar dentro das salas de aula? Professores ensinados nestas mesmas salas de aulas, que foram formados por outros professores nestas mesmas salas de aula, que não evoluíram nada, ou muito pouco. As mesmas salas de aula que receberam a minha ajudante de ordens, hoje completamente despreparada para ajudar o próprio filho em sua educação. Já disse aqui em outra crônica que é gritante a necessidade de melhorar a formação de professores, mas para isso é preciso uma reforma de proporções até agora inimagináveis na educação.

Como pode um professor com formação de terceiro grau cometer quatro erros de português (gramaticais e ortográficos) num enunciado de questão de prova? Chega a dar enjoo ouvir professores, pedagogos e afins dizendo “vamos estar fazendo”, “vamos estar encaminhando”, “vamos estar convidando”. E o que dizer de um proferssor de Matemática que fala ‘pobrema’? O que fazer com uma professora de História que diz que Machu Picchu fica no México? E esses são até exemplos bobos, diante do que sequer sonhamos ocorrer diariamente nas salas de aula por este país afora.

Daí eu pergunto: que preparo nossos professores têm para oferecer formação cultural e humanística aos alunos, além do currículo básico das matemáticas, línguas e ciências? Tais conteúdos são despejados, para que os alunos decorem, tirem boas notas e sejam aprovados no fim do ano. E eu pergunto, de novo: passar de ano basta? Quando, enfim, teremos escolas nas quais se ensina a pensar? Talvez esta ausência de respostas seja um dos motivos que levem famílias brasileiras a tirarem seus filhos da escola regular e oferecerem educação em casa (veja matéria). Uma decisão extremada, que nem sei se pode ser comparada à situação que assisto atualmente, com minha ajudante de ordens. São, no mínimo, histórias que provocam uma boa reflexão.
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5 comentários:

jussa disse...

Giovana

Embora não tenha filhos, posso comprovar a diferença nas crianças do meu convívio, crianças que estudam em escolas que ensinam a pensar, (caras demais) para a maioria das pessoas que colocam seus filhos na educação pública e ficam na torcida para que passem de ano. Certamente isso não basta, seria preciso mesmo uma reforma muito grande para mudar este cenário. Tive uma pequena experiência como professora e pude comprovar a falta de formação fundamental na maioria dos alunos. Acho que é triste, mas não tem solução.

Ítalo de Paula disse...

Giovana, concordo com seu desabafo, apesar de ter de salientar que é relativo. Seu artigo veio no mesmo dia em que escrevi sobre a questão da bonificação aos professores do estado que tudo indica ocorrerá esse ano.

Gostaria que desse uma olhada no meu texto para tentar entender meu ponto de vista. Você colocou o tradicionalismo das escolas à prova, mas gostaria de questiona-la sobre um aspecto: A escola não ensina a pensar, a criar. Mas e quando temos um professor com as características opostas a que você cita, que tenta desenvolver esse tal raciocínio crítico e se vê preso a um sistema que pede que seja tradicional? Meu trabalho é todo focado nessa perspectiva e por diversas vezes me esbarro na necessidade que o próprio aluno tem de decorar, de "aprender" da mesma forma que sempre fez.

A escola de hoje é tradicional, mas não apenas porque os professores o são. Para aqueles que tem o intuito de mudar essa lógica, os obstáculos são ainda maiores. E, acredite, são muitos os professores que tentam.

Genis disse...

Oi Gi!

Saudades de vc....
Eu chego a me arrepiar qdo 'leio' vc...
Olha esse gerundismo me ataca de vez em qdo CONFESSO!!!! Todos falam assim no meu meio...
Vc é sim MESTRE!!
Te admiro demais.
Bjs.

GIL ROSZA disse...

Pode ser até que piore! Em plena era do “following and followers” talvez seja mais fácil seguir alguém que pense que se dar ao luxo pensar!

Carol Cunha disse...

"A gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte" já dizia o filósofo Arnaldo Antunes!!! Educação é oportunidade. É o que lemos, ouvimos, sentimos, experimentamos, trocamos... A escola cumpre a formalidade, faz papel de anfitriã, mas isso não resolve muito!! Numa realidade onde se luta para comer muita coisa irá faltar!!
Educação é saúde, consciência e lucidez e não pode ser medida por vagas!!
Ainda precisamos bem mais que isso!!