21 de setembro de 2010

Falatório insensato

Não costumo falar desarvoradamente sobre a minha religião. Não gosto de impor a ninguém minha crença. Não me sinto no direito. Até porque refuto quem se comporta dessa forma.

Sinto-me bem com o que acredito e pronto. Respeito as crenças de todos, porque cada um sabe o que lhe faz bem, em quê pode acreditar. Como dizia Mário Quintana, “cada um pensa como pode”, e faz o que pode, sente como pode, crê no que pode crer.

O que não tolero (minha religião prega a tolerância, mas essa é uma das minhas muitas limitações) é o falatório sem fundamento. Pessoas que apontam, opinam e desqualificam sem pesquisar, investigar, perguntar. Pseudointelectuais que desandam a criticar, sem ao menos parar um pouco para exercitar o pensamento.

É sobre isso que trata o email que recebi e que faço questão de reproduzir. O desabafo – vamos chamar assim – é de Giovanni Bruno, vice-presidente da União das Organizações Espíritas Intermunicipal de Campinas – USEIC; físico; especialista em Engenharia Mecânica pela UNICAMP; especialista em Economia de Empresas pela PUC-Campinas; professor de Comércio e Marketing Internacional. Os grifos são meus.

Eis:

Caríssimos,

Creio que devemos esclarecer o público quando a Doutrina Espírita é atacada ou quando seus conceitos são distorcidos.

Allan Kardec fazia isso na Revista Espírita. Tento fazer o mesmo, embora sem o brilhantismo do Codificador.

Se errei em algum ponto em minha resposta, por favor, me corrijam.

Um abraço a todos e muita Paz.

Giovanni


Escreveu Daniel Piza, no domingo, 12/09/2010, no Estadão:

“Por que não me ufano: Modernidade que em alguns solos resiste a vingar.

A atual onda de espiritismo em filmes, livros, revistas e TVs não chega a me espantar, porque qualquer pessoa que circula pelo Brasil sabe como ainda se acredita em reencarnação, vida após a morte, etc.O que me espanta é que o assunto seja tão pouco debatido, que o exercício de contestação seja sempre visto como fútil. No Brasil, criticar ou rebater uma crítica, por mais intelectualmente desonesta que seja, é “passar recibo” ou “se levar sério demais”; a turma do deixa-disso logo se mobiliza em nome de uma harmonia social antirrealista. Mas eu me divirto perguntando coisas como: se os espíritos sobrevivem e se comunicam conosco, têm matéria? Se têm matéria, onde ficam? E por que só escolhem alguns médiuns, feito povo eleito?”


Abaixo a mensagem que enviei (Giovanni) a ele:

Prezado Daniel,

Desculpe o tom intimista, mas leio seus artigos no Estadão desde que Paulo Francis nos deixou. Venho comentar parte do seu artigo de domingo, 12/09/2010, no Caderno 2 do Estadão, “Por que não me ufano” e fazer um breve relato sobre o Espiritismo. Gostaria, no entanto, que você lesse esta mensagem até o final.

Quando na França, em 18 de abril de 1857, surgia o “O Livro dos Espíritos”, com ele vinha à luz o Espiritismo, fundamentado em Ciência, Filosofia e Religião. Ao contrário do que afirmou a dDra. Sandra Jaqueline Stoll neste jornal, em 18/04/2010, que não teve a delicadeza de publicar minha contestação ao artigo dela e nem ela em me responder, o surgimento do Espiritismo provocou, sim, verdadeira convulsão nos meios intelectuais e nos elegantes salões europeus. Aliás, as teses da dra. Stoll, bem como os artigos que escreve, me lembram muito o ditado bíblico: cegos guiando cegos.

Cientistas da época, físicos, químicos, astrônomos e outros do porte de um Michael Faraday, Willian Crooks, Camille Flammarion, Alfred Russel Wallace (sim, aquele da Teoria Darwin-Wallace da Evolução das Espécies); escritores como Victor Hugo e Sir Arthur Conan Doyle (...elementar, caro Daniel...) só para citar alguns, e que a dra. Stoll julga serem ninguém, se ocuparam, se envolveram e confirmaram os fenômenos espirituais.

Willian Crooks, filiado a Royal Society, publicou seus trabalhos confirmando tais fenômenos no “Quartely Journal of Science” de janeiro de 1874. É claro que houve os prós e os contras, como sempre. Aliás, na moderna História da Ciência, qualquer cientista que diz acreditar em Deus é desqualificado por aqueles que são ateus e materialistas. São inúmeros os pesquisadores “excomungados” por seus pares. Isaac Newton – hoje, é também “acusado” de ter sido capitalista - Einstein, Pitágoras, Sócrates, Platão, Galileu, Carlo Rubia (Nobel de Física de 1984)... A lista é enorme.

Basta o sujeito dizer que acredita em Deus e que segue uma religião que, instantaneamente, a tropa de choque cientificista e os críticos materialistas, o tratam como um “aleijão mental” e jogam sua reputação na lama, não importando a relevância de seus trabalhos para a Ciência. Para eles, é muito melhor um pesquisador medíocre ateu do que um gênio, ou quase isso, que acredite em Deus.

Você sabe que é assim e que não estou inventando nada. Observei isso nos 10 anos que passei dentro de uma Universidade que realiza pesquisas de ponta neste país intelectual e moralmente árido.

Dizer-se espantado que haja pouco debate sobre o assunto reencarnação, vida após a morte etc, apenas mostra que você nunca se preocupou em ler ou pesquisar nada sobre isso. Há os artigos da dra. Stoll e, também, uma enorme literatura séria sobre esse assunto aqui e em muitos países.

Vamos abrir um parêntesis e falar brevemente sobre reencarnação e mediunidade. Os primeiros cristãos conheciam a reencarnação e a mediunidade. Esse ensinamento foi abolido dos ensinos cristãos no século IV, no Concílio de Nicéia, por Constantino. No século VI, no Concílio de Constantinopla, por pressão política da Imperatriz Teodósia, e sob influência de alguns bispos, a reencarnação deixou de fazer parte, definitivamente, do Cristianismo. Pois é, já naquela época os ensinamentos de Jesus foram aviltados e religiosos ambiciosos já vislumbravam a conquista do poder temporal - que atravancou o progresso da Humanidade em mais de mil anos, vindo a culminar na lamentável Santa Inquisição.

Nas antigas Escolas de Iniciação da Índia, Pérsia e Egito essas leis eram conhecidas. Mesmo na Roma dos Césares, em meio a tanta corrupção, violência e orgias, ainda assim havia gente decente conhecedora dessas leis.

Se tudo isso era estudado entre quatro paredes e matava-se quem ousasse divulgar esses ensinamentos, hoje, o Espiritismo os coloca à disposição de quem quer que seja, gratuitamente, em qualquer Centro Espírita. Ao contrário, por exemplo, dos Rosacruzes (AMORC), sociedade fundada por Amenhotep IV, ou Akhenaton, e que subsiste até os dias atuais. E isso não é uma crítica a eles ou a outras sociedades secretas.

Em todas as épocas da Humanidade tratou-se de reencarnação e comunicação com os mortos ou espíritos. Todos os povos, dos mais incipientes até os intelectualmente avançados, cada qual deu a sua interpretação dessas leis.

Fechado o parêntesis, é preciso que se entenda que o Espiritismo não veio trazer nada de novo sob o Sol, apenas retifica o Cristianismo, praticando-o em sua pureza original. E, refutando mais uma vez a dra. Stoll em seu artigo “Espiritismo à Brasileira”, no Espiritismo brasileiro, Europeu e de onde quer que seja, não há, nunca houve, não haverá qualquer “relevo mágico-místico” porque um dos seus principais fundamentos é a “razão”.

Com relação às provas da reencarnação, o trabalho dos espíritas e de outros pesquisadores tem sido um autêntico “trabalho de Sísifo”. Emprega-se todo o arcabouço científico para reunir fatos, provas e conclusões e, depois, um “mané” qualquer, ou meia-dúzia deles, munidos de grande “achismo” e um sorriso de escárnio na boca diz (dizem), que aquilo não é real.

Prova-se novamente e dizem ser impossível. Repete-se a experiência e dizem que é farsa. Baseados em quê refutam as provas? Apenas no “achismo”, pois nunca pesquisaram e nem estudaram matéria alguma sobre aquele assunto. Pior, recusam-se a analisar seriamente os trabalhos. Por medo. Medo de terem que mudar toda a sua concepção de vida. E aqui vai um “aforismo sem juízo”, que você gosta tanto: em tempos de Universos de sete a catorze dimensões que se interpenetram, sobrevive-se jurando três dimensões.

Para você, uma crítica baseada no “achismo pessoal” é uma crítica séria? É honesto fazer isto? Não foi baseado em achismo e interpretação errônea da Bíblia que o bispo se recusou a olhar pela luneta de Galileu?

Vou relatar, rapidamente, uma experiência ocorrida na UNICAMP, em 1985, na 1ª (e última) Conferência Internacional da Interação Mente-Matéria:

Gasparetto (Luiz Antonio), que naquela época “ainda” era espírita, há muito não o é mais, dizendo-se agora espiritualista, fato desconhecido pela dra. Stoll, foi convidado a se apresentar na referida Conferência. Ao adentrar no salão, lotado de “Phds” de diversas áreas e tendências, o riso dos incrédulos e cínicos refletia-se nos seus rostos. Quando Gasparetto começou a relatar em quais institutos e quais os pesquisadores a que se submeteu na Europa, (ex)União Soviética, Estados Unidos (Harvard, Stanford, Berkeley) e que atestaram ser “real” o fenômeno de psicopictoriografia (ou pintura mediúnica), os mestres e doutores engoliram o sorriso irônico e ficaram espantados ao vê-lo pintar - “mediunizado” - diversos quadros, de Da Vinci a Picasso. O diretor do Instituto de Artes, coitado, abestado, mal continha sua estupefação. Não se conformava em ver a rapidez com que os quadros eram pintados (de 1 a 3 minutos), as diversas técnicas usadas (em vida um bom pintor consegue dominar, no máximo, duas – palavras dele), as cores que não se misturavam, isto é, cada cor estava no seu devido lugar, embora utilizadas com rapidez e alguns quadros pintados com as mãos e de cabeça para baixo.

A apresentação foi às claras. De manhã. A luz do dia entrava por todas as janelas do salão do Instituto de Química que também tinhas suas luzes acesas. Tudo foi fotografado e filmado em VHS.

Diante de tão marcante apresentação e diante de seus olhos atônitos, os “çábios” se calaram e nem se atreveram a contestar coisa alguma. Pegaram a síndrome do avestruz: enterraram suas cabeças nas três dimensões e apagaram de suas memórias o que viram.

O baiano Ubaldo tem razão ao ponderar que “prova, não prova nada”.

Hoje, na Unicamp, no mais puro Orwell (1984) ninguém mais sabe onde foram parar aqueles quadros ou se um dia eles realmente existiram. Você tem razão: “modernidade que em alguns solos resiste a vingar”. Ainda agora, prosseguindo com o “trabalho de Sísifo”, o delegado João Alberto Fiorini, da Polícia Civil Científica do Paraná, pesquisa a hipótese de que trazemos, nas reencarnações, a mesma impressão digital da reencarnação passada. Os trabalhos seguem em laboratórios científicos e, em alguns casos, já se comprovou a tese.

E aí, qual será a desculpa esfarrapada dos materialistas? Falsificação de análises e resultados ou vão desqualificar moralmente a ele e a outros pesquisadores?

Será que aqueles que se envolveram com os fenômenos espíritas viraram “QI de ameba” – e moral duvidosa - após provarem serem verdadeiros tais fenômenos, que nada mais são do que fenômenos naturais presentes em todas as culturas e épocas da Humanidade?

O Prof. Dr. Sílvio Seno Chibeni, mestre em Mecânica Quântica, Doutor e Livre-Docente em Filosofia da Ciência, da Unicamp, escreveu um artigo onde demonstra que Allan Kardec usou a metodologia científica para codificar o Espiritismo. Não poderia ser diferente. Um dos mais brilhantes alunos de Pestalozzi, o francês Allan Kardec, ou Denizard Hippolyte Léon Rivail, positivista, educador emérito e maçon, escreveu várias obras que foram adotadas em escolas francesas. Teria Kardec ficado “leso da cabeça” só porque pesquisou, estudou, provou e codificou o Espiritismo? Enfim, você quer um debate em quais bases?

Você vai analisar previamente os trabalhos de Crookes, Faraday, Bozzano, Dellane, Rodrigues (Henrique), Andrade (Hernani Guimarães), Facure (Nubor), Banerjee, Stevenson (Ian) e outros mais recentes e dar seu parecer ou vai se basear na obra polêmica da dra. Sandra Stoll? (Fico pasmo que ninguém ainda tenha rebatido os absurdos sobre o Espiritismo em sua obra. Ou será que há um certo receio em publicá-los?).

Como crítico, você não tem que analisar a obra que vai criticar? Afinal, não é esse seu trabalho? Você vai ler e analisar antes “O Livro dos Espíritos” e “O Evangelho Segundo o Espiritismo” para depois tirar suas conclusões ou vai continuar a fazer como outros “manés” que, sem ler ou estudar coisa alguma, vai dizer acho isso ou acho aquilo?

Como sugestão, aproveite a onda “Nosso Lar” e promova uma Conferência sobre esse tema no Estadão. Convide a dra. Stoll e outros que você conhecer. Do meu time, prefiro o Prof. Dr. Cosme Massi, do Centro de Lógica da UFPR, ou da Unicamp, o Prof. Chibeni ou o Prof. Dr. Aécio Pereira Chagas (um dos maiores químicos do Brasil e do mundo) ou outros que você pode escolher entre as mais diversas associações de profissionais espíritas como as de Magistrados, Advogados, Delegados, Promotores, Médicos, Jornalistas, Psicólogos, Físicos e Engenheiros, sem contar outras universidades. Há um bom punhado deles só na Unicamp e na USP, e teses de mestrado e doutorado com temática espírita são aprovadas nas nossas principais universidades.

Felizmente, há espíritas em “todos” os extratos sociais do país, da América Latina (pasme, até em Cuba), América do Norte, Europa, Oceania, Japão...São solos que abrigam e cultivam a modernidade. E até na África.

O Estadão, por exemplo, em seu rol de articulistas teve um grande espírita: Monteiro Lobato.

Se citei os “Phds espíritas”, foi para que não se firmasse em você o preconceito de que “Espiritismo é coisa de gente ignorante e sem informação”. Nós espíritas, sabemos que os “títulos de nada valem”, pois, quando retornarmos à Pátria Espiritual, nossa consciência nos perguntará “quanta caridade praticamos e quantos corações aflitos aliviamos”.

Em tempo: Willian Crookes foi contratado para desmistificar os fenômenos espíritas e acabar de uma vez por todas com as notícias que circulavam pela Europa e América sobre eles (ainda me pergunto como a dra. Stoll teve a coragem de dizer que não houve repercussão nenhuma sobre o surgimento do Espiritismo!!!). E Crooks, pesquisador famoso e caráter ilibado, publicou e atestou a veracidade de tais fenômenos.

Deixo um fraternal abraço e os votos de muita Paz a você e à dra Sandra Jacqueline Stoll, se por ventura a contactar, a quem espero que encontre o bom senso e a realidade dos fatos em suas pesquisas, e me coloco à sua disposição para enviar-lhe algum trabalho que queira consultar e que não encontrar em livrarias ou na Internet.

Atenciosamente,

Giovanni Bruno
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