14 de junho de 2010

A história de Joana

O que acontece quando exercitamos a arte da escutatória

Conhecemos as pessoas quando nos dispusemos a ouvi-las. Isso é básico. Só que não podemos ou não queremos praticar o diálogo – ou ‘escutatória’ – no dia a dia, e quando acontece, ficamos tão surpresos com o resultado, que no meu caso, vira tema para uma crônica.

Conheci uma garota de 22 anos, vendedora de uma loja de eletrodomésticos. Morena, alta, bonita, um sorriso pra lá de cativante. Era sábado, Dia dos Namorados e, claro, na falta de assunto para o início da conversa, minha pergunta foi chavão: “Vai sair hoje?”. Ela: “Não, não, estou muito cansada. O comércio nos suga tanto, que o namorado não aguentou e terminou comigo. Vou pra casa dormir”.

Desse ponto em diante, passei a conhecer a moça, a quem aqui dou o nome de Joana. Em pleno sábado, quase seis da tarde, ela estava ali, à minha disposição, aguardando para fechar uma venda. Sentou-se ao meu lado e começou a falar, como se fôssemos amigas de longa data. Disse que desde que entrou para o comércio, sua vida ficou limitada. Passa quase todas as horas do dia em pé, trabalha sábados praticamente o expediente integral, e quando chega em casa, só quer saber de dormir. “Domingo fico me arrastando da cama para a sala e para a cozinha. É muito cansaço”, ela relata.

Joana terminou o segundo grau e pensa em fazer uma faculdade, mas não sabe se vai conseguir suportar o sacrifício de passar pelo menos quatro anos encarando uma jornada de 8 às 22 horas. Sem contar o tempo que vai precisar dedicar a estudos e produção de trabalhos acadêmicos. “Mas essa pode ser a minha única oportunidade de um dia sair do comércio”. Sim, pode ser mesmo. Por isso fiz questão de animá-la para o que penso ser a saída para todos os males do mundo: educação. Estudar, estudar, estudar sempre.

Como Joana, muitas outras pessoas estão no limiar entre uma vida limitada e as possibilidades do conhecimento, da informação, do desenvolvimento cultural. Percebi em Joana um fio tênue de esperança de que ainda há cidadãos que esperam mais da vida, que querem mudanças, que pretendem ser mais do que são, que buscam oportunidades de se sentirem melhores. E eles só precisam daquela forcinha, do tradicioinal empurrãozinho. Precisam de alguém que as ouça e fale: “Claro que você pode fazer uma faculdade! Não perca mais tempo, você está muito nova para ficar parada aqui nesta loja, só ganhando seu salário para sobreviver. Use esse dinheiro para investir em você, numa profissão, numa carreira, em procurar descobrir por que viver”.

Que fique bem claro: jamais estimularia alguém a deixar o emprego, mas sim, a abrir seus horizontes. Há infinitas formas de viver melhor, se o indivíduo se dispuser a isso. Como? Estudando. É fácil e cômodo se encostar naquele empreguinho seguro, que dá uma boa comissão, e pronto. Mas eu vi, no fundo dos olhos de Joana, que o ser humano precisa de muito mais que uma vida cômoda e segura. Precisa de conhecimento. Quando respondi a ela que havia feito uma faculdade e que era feliz com a minha profissão, o rosto dela ganhou expressão de esperança, de novas perspectivas, de crença num futuro diferente.

Há muitas formas de ajudar o próximo e uma delas é ouvir. Quero crer que fiz alguma coisa por Joana em 15 minutos de bate-papo. Seu sorriso e sua postura eram outros quando se despediu de mim. Espero que faça o curso superior que pretende e que aquele sorriso brilhe em outras paragens, além da porta da loja de eletrodomésticos.
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2 comentários:

ebertone@uol.com.br disse...

Muito bem. Um exemplo tão simples do cotidiano e que certamente fez a diferença. Não é tão difícil assim, afinal de contas, nos mostrarmos capazes de um gesto de gentileza ou solidariedade. Se compreendêssemos melhor a filosofia do "somos todos um" - amaríamos melhor ao outro, o planeta e a nós mesmos. O exercício de ouvir é um bom exemplo numa época em que nos justificamos o tempo todo, que não temos tempo...

c i n t i a disse...

Perfeito. Estudar é a chave.