24 de agosto de 2009

O conflito das universidades

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Li esta semana na Revista Cult, o dossiê “O Conflito das Universidades”.

Num debate sobre a informação de que as instituições de ensino superior particulares são responsáveis por 70% das vagas oferecidas no ensino superior no Brasil, foram ouvidos três profressores da PUC-SP: Edgard de Assis Carvalho, titular de antropologia; Lucrécia D’Alésio Ferrara e Eugênio Trivinho, ambos membros do programa de pós-graduação em comunicação e semiótica.

Eles falam sobre o papel das universidades particulares na formação de novos profissionais; o nível de produção do conhecimento; as diferenças de patamares entre universidades públicas e privadas.

Reproduzo aqui, para reflexão, uma resposta do professor Edgard Carvalho à seguinte questão:

CULT – Segundo o Ministério da Educação, 70% das vagas no ensino superior no Brasil provêm de instituições privadas. Isso revela a falta de democratização do acesso à universidade pública?

Edgard – A universidade brasileira é um produto tardio sem tradição consolidada. É bom jamais esquecer que a USP foi criada em 1935. Temos que levar em conta também que o golpe de 1964 ceifou a universidade no que ela tinha de mais relevante, tanto nas ciências da cultura quanto nas ciências da natureza. Essa dicotomia perversa – natureza/cultura – impede até hoje a formação de especialistas policompetentes e de cidadãos imbuídos da necessidade de reformar a cultura, esse vasto acervo multimilenar criado pelo homem. Talvez, por isso, as instituições privadas experimentaram um grande crescimento exponencial no período pós-1964. aprovadas sem critérios rígidos de excelência, espalharam-se por todo o país, algumas delas já contam com participação majoritária de capital externo. Trata-se de uma distorção de proporções gigantescas.
Para superá-la o Estado deve redirecionar sua política e incluir as particulares de qualidade comprovada num tipo de planejamento mais amplo de caráter democrático. Isso porque pensar os saberes no século 21 implica enfrentar as crises da escola, entrelaçar conhecimentos, aprender de outro modo. Precisamos ser contaminados pela lógica da audácia e não deixar que a lógica da convenção impeça a emergência da criatividade em todos os setores da universidade, seja ela estatal, comunitária ou privada.
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