27 de fevereiro de 2009

O bêbado e a equilibrista

Por Celso de Castro Barbosa


Numa das mais belas páginas da música popular brasileira, que acabou virando hino da anistia no fim dos anos 1970, João Bosco e Aldir Blanc uniram, na mesma canção, um bêbado e uma equilibrista.

A dupla me vem imediatamente à cabeça quando penso na relação do homem com o planeta. Ao homem, evidentemente, cabe o papel de bêbado, restando à Terra o da equilibrista.

Mas, reagindo às agressões milenares de seus habitantes, ela parece saber que seu futuro é certo, independentemente dos ataques de que é vítima. Por causa deles, vem dando sinais de embriaguez em acessos de fúria cada vez mais frequentes.

Aparentemente, ele ensaia surtos de equilíbrio ou ressaca curada quando percebe que ela está esquentando demais e que na dispensa já não conta com gêneros de primeira necessidade como a água e os alimentos. Por isso, tenta deter a devastação.

Que ninguém se engane com esses papéis trocados do bêbado e da equilibrista. Minha bola de cristal quebrou faz tempo, não sou expert em meio ambiente, mas como jornalista militante, basicamente um generalista, dou meus palpites e faço minhas apostas.

Neste duelo, ponho todas as minhas fichas na equilibrista. Primeiro, porque ela está aí há muito tempo, e põe muito nisso, resistindo bravamente a tudo e todos, sem dar sinais de que sobreviver à ação do bêbado é um desafio. Anterior ao surgimento da nossa espécie, suponho que é pule de dez que ela assim permanecerá após o nosso desaparecimento.

Alternando bebedeira e lucidez, ele enfim deixa cair a ficha. Já sabe que, mesmo estropiada, a equilibrista vai em frente. Quanto ao seu próprio destino, somente dúvidas. A mais cruel diz respeito à permanência do bêbado na Terra. Aliás, dúvidas que vão se transformando em certezas nada otimistas.

Daí os protocolos, a militância planetária, a onda verde, enfim. Mais dúvidas: haverá tempo suficiente? Estaremos dispostos a abrir mão de um tipo de desenvolvimento que nos trouxe até aqui? Sei não... No impasse, mais otimista do que convencido, prefiro ficar com o decreto da equilibrista, para quem, no verso de Bosco e Blanc, o show de todo artista tem que continuar.


Texto publicado originalmente na revista Florense, edição Primavera 2008.
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2 comentários:

Thayra Azevedo disse...

MARAVILHOSO texto!

Jader Moraes disse...

A esperança dança
na corda bamba de sombrinha...

Linda música, belo texto!