24 de janeiro de 2009

Critério

Luís Fernando Veríssimo

Os náufragos de um transatlântico, dentro de um barco salva-vidas perdido em alto-mar, tinham comido as últimas bolachas e contemplavam a antropofagia como único meio de sobrevivência. – Mulheres primeiro – propôs um cavalheiro. A proposta foi rebatida com veemêcia pelas mulheres. Mas estava posta a questão: que critério usar para decidir quem seria sacrificado primeiro para que os outros não morressem de fome? – Primeiro os mais velhos – sugeriu um jovem. Os mais velhos imediatamente se uniram num protesto. Falta de respeito! – É mesmo – disse um –, somos difíceis de mastigar. Por que não os mais jovens, sempre tão dispostos aos gestos nobres? – Somos, teoricamente, os que têm mais tempo para viver – disse um jovem. – E vocês precisarão da nossa força nos remos e dos nossos olhos para avistar a terra – disse outro. Então os mais gordos e apetitosos. – Injustiça! – gritou um gordo. – Temos mais calorias acumuladas e, portanto, mais probabilidade de sobreviver de forma natural do que os outros. Os mais magros? – Nem pensem nisso – disse um magro, em nome dos demais. – Somos pouco nutritivos. – Os mais contemplativos e líricos? – E quem entreterá vocês com histórias e versos enquanto o salvamento não chega? – perguntou um poeta. Os mais metafísicos? – Não esqueçam que só nós temos um canal aberto para lá – disse um metafísico, apontando para o alto – e que pode se tornar vital, se nada mais der certo. Era um dilema. É preciso dizer que esta discussão se dava num canto do barco salva-vidas, ocupado pelo pequeno grupo de passageiros de primeira classe do transatlântico, sob os olhares dos passageiros de segunda e terceira classe, que ocupavam todo o resto da embarcação e não diziam nada. Até que um deles perdeu a paciência e, já que a fome era grande, inquiriu: – Cumé? Recebeu olhares de censura da primeira classe. Mas como estavam todos, literalmente, no mesmo barco, também recebeu uma explicação. – Estamos indecisos sobre que critério utilizar. – Pois eu tenho um critério – disse o passageiro de segunda. – Qual é? – Primeiro os indecisos. Esta proposta causou um rebuliço na primeira classe acuada. Um dos seus teóricos levantou -se e pediu: – Não vamos ideologizar a questão, pessoal! Em seguida levantou-se um ajudante de maquinista e pediu calma. Queria falar. – Náufragos e náufragas – começou. – Neste barco só existe uma divisão real, e é a única que conta quando a situação chega a este ponto. Não é entre velhos e jovens, gordos e magros, poetas e atletas, crentes e ateus... É entre minoria e maioria. E, apontando para a primeira classe, gritou: – Vamos comer a minoria! Novo rebuliço. Protestos. Revanchismo não! Mas a maioria avançou sobre a minoria. A primeira não era primeira em tudo? Pois seria a primeira no sacrifício. Não podiam comer toda a primeira classe, indiscriminadamente, no entanto. Ainda precisava haver critérios. Foi quando se lembraram de chamar o Natalino. O chefe da cozinha do transatlântico. E o Natalino pôs-se a examinar as provisões, apertando uma perna aqui, uma costela ali, com a empáfia de quem sabia que era o único indispensável a bordo. O fim desta pequena história admonitória é que, com toda a agitação, o barco salva-vidas virou e todos, sem distinção de classes, foram devorados pelos tubarões. Que, como se sabe, não têm nenhum critério.

(VERÍSSIMO, L.F. O nariz e outras crônicas. 3a edição. São Paulo: Ática, 1997)
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2 comentários:

Thayra Azevedo disse...

ADOREI!! Isso me faz lembrar o quão injustos e individualistas somos... e tbm na questão de ser ou não ser. O ser humano é uma incógnita. O tubarão... ah ele é prático e resolvido. kkkkk

Bjos

elaine bertone disse...

Sem dúvida é tragicômica toda essa hstória... e nos mostra como é de fato a natureza. É preciso lembrar que dentro do nosso planeta existem vários universos. O mar ou a mata não é nosso habitat natural, mas se vivenciarmos uma situação de náufragos ou sobreviventes, os nossos critérios certamente mudam em função da vida. O nosso lado animal e instintivo se destaca rapidamente. Quem viu o filme "Os sobreviventes dos Andes" sabe do que estou falando...