14 de novembro de 2008

Cinza

Por Jader Moraes



Moro numa cidade cinza. Em se tratando de Volta Redonda, que nasceu em volta da Usina do Aço, a afirmação poderia até parecer óbvia. Mas não é. O cinza da minha cidade não se resume ao céu empoeirado; passa também pelos prédios mortos, construções inacabadas e pelas pessoas. Sim, as pessoas de minha cidade são cinza.

A confusão do dia-a-dia e o movimento constante na avenida disfarçam a rigidez da cidade, como se o cotidiano nos fosse deixando cegos frente às mazelas arquitetônicas que se encontram por aqui. Não, não sou arquiteto e tampouco quero ser. Porém, bastam alguns minutos de observação para concluir que o prédio da direita é exatamente igual ao da esquerda e o prédio da frente se assemelha muito aos outros dois. Senão no tamanho, eles se assemelham na forma, no jeito, na cor. São cinza.

E qual o problema com o cinza? Seriam melhores se fossem azul, vermelho, rosa? Seriam melhores se ao invés de quadrados, fossem redondos, triangulares, multidimensionais? Não, o problema não é a cor. Não é a forma. O problema é a repetição da cor, a repetição da forma, que dão um aspecto doentio à cidade cinza.

Mas o pior, na realidade, é que a cor do céu, do chão, dos prédios... se reflete nas pessoas. Durante alguns minutos de caminhada, dezenas, centenas delas passaram por mim. Algumas pisaram no meu pé, em outras esbarrei, e ainda outras me pediram licença pra passar. Enfim, cruzei com várias pessoas diferentes. Mas quem são elas? Quem são essas pessoas que, apressadamente, passam por você como que se desviando de um obstáculo? Quem sou eu?

A contemporaneidade nos deu o péssimo hábito de olhar, mas não ver. Meus olhos até flagraram as pessoas que passaram por mim. Mas não as enxergaram. Em meio a tanto cinza, nos acostumamos a olhar as pessoas como se fossem coisas. Desaprendemos as regrinhas mais simples ensinadas ainda no berço: “licença, por favor” saiu de moda. Passos apertados, uma mão no ombro, ou mesmo a cara feia é que servem de indicativo para o outro abrir passagem. Um “obrigado” sincero então, nem pensar. No máximo um sorriso falso, de obrigação. O que está acontecendo conosco?

Não sei se prédios coloridos seriam a solução, talvez nos distraíssemos com eles e continuaríamos, então, a não enxergar as pessoas. Quem sabe fechar a usina poluente resolvesse algo? A natureza agradeceria, a criança poderia enfim perguntar ao pai “Por que o céu é azul?”, mas não acho que esse seja nosso maior problema. A solução, talvez, seja jogar um balde de tinta nas pessoas. Derramar na terra cores de aquarela, como sugeria o poeta Toquinho. O mundo não precisa de novas cores, as pessoas é que precisam redescobrir as cores com as quais foram pintadas.

O cinza não nos pertence. Ele veio de fora pra dentro, como se a cor dos prédios viesse morar dentro de nós. Mas agora temos que fazer o efeito contrário. E a partir do meu azul, do vermelho da fulana e do rosa do sicrano, recolorir essa cidade. E, a partir daí, não será mais ela quem vai refletir n’agente. Somos nós, que na beleza de nossa diversidade, reluziremos n’ela.

3 comentários:

Gabriel Araujo disse...

rapaz
se voce acha VR cinza nao imagina oq é sao paulo.
mas pra pintar esse mundo sao necessarios muitos pintores. seria legal se nos dispusessemos a pintar.

cara q bom poder ler seus textos. suas ideias. otimo

valeu meu irmao

Thayra Azevedo disse...

PERFEITO! Amei o texto. "Sincero e verdadeiro, sem nada de obrigações"!
Essa realidade tão presente e triste, faz esquecermos de nossos verdadeiros valores. A gentiliza e integridade estão em 'estinção'!

beijos

Claudio Carvalho disse...

Moro numa cidade colorida. Da janela do meu apartamento consigo ver o amarelo dos canários e bem-te-vis, o azul do sanhaço, o multicolorido da saira, o branco da garças que corta o céu azul e o negro reluzente dos patos sobre as águas do Paraíba. Admiro o vermelho rubi da sabiá e o tricolor do pica-pau. Adoro a molecagem dos bicolores caga-sebos em torno dos bebedouros de água numa disputa frenética com beija-flores de várias tons de cores. Adoro caminhar pelas calçadas da minha cidade por que por lá ainda encontro pessoas com o semblante alegres, brincalhonas e otimistas. Não parece mas eu moro em Volta Redonda.