2 de outubro de 2008

Meu encontro com Rainer Maria Rilke

Caminhando por uma calçada bati o olho na vitrine de uma livraria e dei de cara com o título “Rilke – cartas a um jovem poeta”. Parei, paquerei, comprei. Afinal custava somente R$ 8,00. O livro traz uma série de cartas escritas pelo poeta tcheco Rainer Maria Rilke, em resposta a Franz Kappus, então aspirante a poeta e escritor. Essa correspondência aconteceu entre os anos de 1903 a 1908. A coleção, que leio com avidez, é uma preciosidade. E como não poderia deixar de ser, faço questão de presentear meus quatro leitores com algumas pérolas retiradas das cartas de Rainer.

Aí abaixo, um trecho:

“O senhor olha para fora, e é isso sobretudo que não devia fazer agora. Ninguém pode aconselhá-lo e ajudá-lo, ninguém. Há apenas um meio. Volte-se para si mesmo. Investigue o motivo que o impele a escrever; comprove se ele estende as raízes até o ponto mais profundo do seu coração, confesse a si mesmo se o senhor morreria caso fosse proibido de escrever. Sobretudo isto: pergunte a si mesmo na hora mais silenciosa de sua madrugada: preciso escrever? Desenterre de si mesmo uma resposta profunda. E, se ela for afirmativa, se o senhor for capaz de enfrentar essa pergunta grave com um forte e simples “Preciso”, então construa sua vida de acordo com tal necessidade; sua vida tem de se tornar, até na hora mais indiferente e irrelevante, um sinal e um testemunho desse impulso. Então se aproxime da natureza. Procure, como o primeiro homem, dizer o que vê e vivencia e ama e perde. Não escreva poemas de amor; evite a princípio aquelas formas que são muito usuais e muito comuns: são elas as mais difíceis, pois é necessária uma força grande e amadurecida para manifestar algo de próprio onde há uma profusão de tradições boas, algumas brilhantes. Por isso, resguarde-se dos temas gerais para acolher aqueles que seu próprio cotidiano lhe oferece; descreva suas tristezas e desejos, os pensamentos passageiros e a crença em alguma beleza – descreva tudo isso com sinceridade íntima, serena, paciente, e utilize, para se expressar, as coisas de seu ambiente, as imagens de seus sonhos e os objetos de sua lembrança. Caso o seu cotidiano lhe pareça pobre, não reclame dele, reclame de si mesmo, diga para si mesmo que não é poeta o bastante para evocar suas riquezas; pois para o criador não há nenhuma pobreza e nenhum ambiente pobre, insignificante. (...) E se, desse ato de voltar para dentro de si, desse aprofundamento em seu próprio mundo, resultarem versos, o senhor não pensará em perguntar a alguém se são bons versos.”
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Um comentário:

elaine disse...

Sim...porque o verso é a semente que germinou como um vegetal que aparece com seus rebentos, folhas, ramos e flores após sua maturação no obscurantismo (solo). Desnecessário se faz perguntar qualquer coisa depois disso... é a vida que irrompe!

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