8 de agosto de 2008

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O lixo da ignorância

Gosto de caminhar. É o exercício físico que elegi para manter a saúde em dia. Uma atividade deliciosamente solitária, durante a qual monitoro meu ritmo de acordo com a minha respiração. Não gosto de companhia neste momento, pois me atrapalha outro exercício paralelo, o de pensar. Enquanto observo a paisagem a minha volta, penso, tenho idéias, me reorganizo, faço planos, projetos, me renovo. Por isso tento, sempre que possível, escolher locais agradáveis para me exercitar, já que não é só botar um tênis no pé e sair andando. A caminhada deve ser feita com prazer, para liberar a serotonina nossa de cada dia. Porém, por onde ando ultimamente não tenho gostado de minhas observações e explico por que.

Depois de muito tempo caminhando na beira-rio – a do Paraíba – e de uma longa parada em minhas atividades físicas por conta de impossibilidades várias, retomei recentemente minhas andanças, desta vez na beira-rio do Brandão, que até então desconhecia a pé. Do final do bairro Siderópolis ao antigo Tiro de Guerra, ida e volta, é impossível andar sem uma certa tristeza com o que se vê: a margem do rio Brandão tornou-se uma lixeira. São copos, garrafas e sacolas plásticas – muitas sacolas plásticas, entulho de obras, baldes, lonas plásticas, jornais – muitos jornais, lixo orgânico, até brinquedo se encontra por lá.

A beira do rio Brandão, na rua Sessenta, é um dos poucos locais de Volta Redonda onde ainda se pode sentir um certo frescor, clima agradável e cheiro de mato, além da companhia do rio ao lado, com o ruído quase musical a acompanhar o exercício de dezenas de pessoas que fazem o mesmo que eu diariamente. É lamentável verificar o abandono, o descaso, o virar de costas das autoridades e da própria população. Não há quem eduque, não há quem fiscalize, não há quem promova a limpeza, não há campanhas de orientação. Não há nada. Há, sim, a degradação progressiva da margem do rio.

E quem perde com isso é toda a cidade, os moradores, o rio Paraíba lá na frente, onde o Brandão deságua, é toda a população que mora próxima ao rio e que reclama de suas cheias no período de chuvas, e aqui eu paro pra perguntar: Mas, quem é que joga lixo na margem do rio? Como é que vão parar lá todos aqueles resíduos de utilização humana? Não seriam as mesmas pessoas que acabam sofrendo os prejuízos? Até cavalos “pastam” na margem do rio e, claro, não chegam sozinhos, são levados por seus donos e amarrados por cordas às árvores. Há ainda uma estrutura de madeira construída dentro do rio, semelhante a um deck. Um desrespeito, uma apropriação indevida quem ninguém vê, ninguém reclama, ninguém coíbe. Afinal, o rio é de todo mundo mesmo, né?

Na outra beira-rio, a do Paraíba, também não era diferente, aliás, era pior. Sempre havia armários de cozinha, guarda-roupas, sofás, fogões, papelão, muita quantidade de entulho de obras, e carros estacionados, numa outra clara demonstração de invasão do espaço público, plena de abuso e de desrespeito. Com a reforma que está sendo feita agora, espera-se não só a revitalização da beira-rio, mas que seja proibido qualquer tipo de ocupação que ofereça prejuízo à preservação da margem, que por sua vez garante saúde ao rio.

Lembro-me de que quando trabalhava em TV fiz uma matéria no bairro 207, sobre o despejo de lixo na margem do córrego Secades. Eram os próprios moradores fazendo suas reclamações, chamando a atenção do poder público para o problema, solicitando a dragagem do córrego, enfim, uma reportagem típica, que ainda vemos muito na imprensa. Nossa surpresa durante a produção da matéria foi quando posicionamos a câmera para gravar a entrevista com o presidente da associação de moradores e atrás dele passou um morador com uma sacola de plástico cheia de lixo, que rapidamente atirou no córrego, sem nenhum constrangimento. Pára o mundo que eu quero descer!

Esse, pra mim, é o maior exemplo do quanto é desanimador falar de preservação, economia de energia, seleção de lixo, controle do aquecimento global para uma população que atravessa a rua de casa para jogar seu lixo no rio em frente. Está difícil crer numa mudança de cultura tão radical. Uma pena. Estamos todos sofrendo uma degradação progressiva provocada pela ignorância.

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Um comentário:

Antonio Carlos Andrade Martins disse...

Olá!
Essa sua crônica falando sobre o lixo jogado no Ribeirão Brandão e no rio Paraíba do Sul, trouxe-me lembranças de quando morava no Bairro Nossa Senhora das Graças. Lembro que as águas do Brandão eram limpas (transparente) e entrava pelo Paraíba em contrate com as águas turva do rio.
Naquele tempo brincávamos no Brandão e íamos pescar os peixinhos barrigudinhos Uma das diversões preferida da molecada do bairro era pegar peixinho no velho barandão ou no Paraíba. Usava de todo os recursos possíveis: Anzol, peneira e saco de pano, até uma lata de banha vazia.
A gente comprava anzol tipo mosquitinho, na casa Guarany, no centro e também na lojinha no edifício Bandeirantes, no Aterrado. Nas outras lojas e armarinhos vendiam, mas era moda compra em uma destas duas lojas tradicionais.
Os peixinhos mais conhecido que a gente pegava era conhecido como Guaru ou Guaruzinho (guaru-guaru- Uma espécie de peixe de escamas, de água-doce, pertencente á família dos Pecilídeos, um peixe que conforme a região recebe diferentes nomes como guaru - cospe-cospe. São peixes vivíparos, pois as fêmeas trazem os filhotes no ventre, ao invés de ovas. Chegam a nascer até 50 filhotes por uma "ninhada". (São também conhecidos pêlos seguintes nomes barrigudinhos, barriga-tíntim, cundunga, bodo na Bahia e gargau no Ceará.).
Tinha gente que chegava ao auge da crueldade, quando pegava uma fêmea e ela estava barrigudinha, espremiam a barriga delas para saírem os filhotinhos. Essa a minha luta para que a molecada não fizesse isto.
No Brandão e no Paraíba do Sul tinha outros peixes, mas a molecada gostava era do barrigudinho do Guaru.
Voltando ao assunto eram poucas as vezes que víamos descer esses entulhos pelo Brandão e que os moradores mais antigos chamavam de barandão.
Assim como você, fico indignado com essa atitude.
Como dizia o amigo do Batman: santa ignorância.