9 de julho de 2008

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À minha perna esquerda

Longe
do corpo
terás
doravante
de caminhar sozinha
até o dia do Juízo.
Não há pressa
nem o que temer:
haveremos
de oportunamente
te alcançar.

Na pior das hipóteses
se chegares
antes de nós
diante do Juiz
coragem:
não tens culpa
(lambra-te)
de nada.

Os maus passos
quem os deu na vida
foi a arrogância
da cabeça
a afoiteza
das glândulas
a incurável cegueira
do coração.

Os tropeços
deu-os a alma
ignorante dos buracos
da estrada
das armadilhas
do mundo.


Poema de José Paulo Paes, após uma cirurgia de amputação

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