8 de julho de 2008

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Uma tarde no posto de gasolina

Posto de gasolina não foi feito para mulher. Ou melhor, no mundo masculino, apesar de estarmos no século 21 e de todos os avanços conquistados pelas mulheres até os dias de hoje, há um despreparo geral em alguns segmentos para lidar com a presença feminina.

Passei uma tarde praticamente inteira num posto de gasolina. Abastecer, lavar, aspirar, troca de óleo. Quis ficar por perto para acompanhar todo o passo-a-passo, mas que fiasco! Cheguei por volta de duas horas e saí mais de quatro. A demora era esperada, devido à fila de espera para lavar o carro. O problema é que quase todo o tempo passei de pé, mal me agüentando em cima dos saltos.

Pensa que algum funcionário do posto se dignou a sequer me cumprimentar? Que nada! Parece que eles são treinados a não enxergar mulher, ou tratá-las como se não existissem. Parece que se esforçam para serem respeitosos, polidos, mas sou tão cliente quanto qualquer outro. Cafezinho só é oferecido aos clientes machos, que chegam suspendendo as calças, falando grosso e coçando...

Mulher ou não, a maior deficiência no atendimento é não ter qualidade no atendimento. Explico: tem combustível, lavagem, aspiração, troca de óleo e o escambau, mas onde é que o cliente espera tanto tempo para tudo isso acontecer? Na pracinha em frente? Enquanto os serviços são prestados os proprietários de veículos ficam de para lá e para cá, a procura das melhores sombras, dos melhores lugares para encostar um pouco. Os que podem, aguardam no próprio carro, na fila de espera para a lavagem.

Depois de uma hora neste passeio, acabei encostada no balcão, aquele que fica no meio do posto, onde os frentistas utilizam as máquinas de cartões. Ao lado das garrafas de café. Vinha um, vinha outro, todos enchiam o copinho e saíam. Quando finalmente me vi tentada a tirar um cafezinho sem autorização – pelo menos para me encorajar a ficar mais não sei quanto tempo de pé – o funcionário responsável pela troca de óleo veio em minha direção.

- A senhora é quem vai trocar o óleo agora, não é mesmo? Boa tarde! Assim que terminar de lavar e aspirar é só colocar na rampa. Estou aguardando a senhora. Já te ofereceram um cafezinho?

Uau! Parecia que eu estava de volta à Terra, após uma rápida viagem à Marte. Deste momento em diante passei a ser tratada como cliente. O rapaz me explicou o que faria com meu carro, quanto tempo ia demorar o trabalho dele, quais poderiam ser suas maiores dificuldades, os problemas que talvez pudesse encontrar. Realmente algo inesperado.

Meu velho carrinho, após muito bem lavado, enxuto e aspirado foi, enfim, para a troca de óleo. “Posso colocá-lo lá para a senhora? Sabe, essa rampa é complicada. Até eu mesmo apanho para fazer isso”, ofereceu-se o funcionário. Rapidamente saí, entreguei a chave e fiquei de longe, olhando, não acreditando em tanta gentileza. Quando meu carro já estava devidamente posicionado, “agora vou buscar uma cadeira pra senhora. Ninguém merece ficar tanto tempo de pé e a senhora ainda vai esperar um tempão”. Para completar, ele me chega com duas revistas “pra matar o tempo”.

Tanta gentileza foi, sim, muito agradável, afinal estava me sentindo um ET num ambiente tão estritamente masculino. E prova de que o segmento ainda não está treinado para atender às mulheres deste século foi uma das revistas que o educado funcionário me trouxe: “Costura perfeita”. Só rindo.

No final das contas acabei me divertindo com essa tarde inusitada e, claro, saí muito satisfeita com o serviço. De férias, está me sobrando tempo para passar umas horinhas num posto de gasolina – argh! – mas, só por um dia. Não pretendo repetir a dose tão cedo.

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Um comentário:

elaine bertone disse...

Acabei me divertindo com o seu texto, porque também já passei por essa experiência. A falta de cuidado com o cliente que vai fazer um serviço deste tipo num posto de gasolina é realmente notório. Devo dizer que resolvi esse problema fazendo uma simples opção: só levo o carro pra lavar em posto de gasolina que tem uma lojinha de conveniência, porque ali eu posso me sentar em uma das mesas e até ficar "matando o tempo" com um livro que eu já levo de casa e se por ventura tiver sede ou vontade de tomar um refrigerante, não terei nenhuma dificuldade. É a única maneira de ficarmos mais confortáveis num ambiente como esse.
ELAINE BERTONE
ebertone@uol.com.br