18 de maio de 2008

Um réquiem para Artur

Por Flávia Anastácio

O Brasil perdeu um grande mestre.
Para muitos outros que agora choram, Artur da Távola foi mais um mestre. Para mim, foi o primeiro. Artur me ensinou a mais importante lição: Quem tem vida interior jamais padecerá de solidão.Artur foi o amante fiel da beleza e da Beleza. Explico-me. A beleza do corriqueiro que ele louvava em suas crônicas: a sutileza de um gesto, a alegria da vida expressa nas palavras, a melancolia de uma lembrança, a leitura solitária de um bom livro, um passeio pelo Rio, sua cidade adorada. Artur foi o cronista do cotidiano, das pequenas coisas do cotidiano, que são as grandes coisas da vida.Já a Beleza, maiúscula, esta é a transcendental, aquela das grandes criações humanas, do legado do Espírito ocidental. Artur foi uma mente de vasta cultura, de sensibilidade estética e de compreensão profunda da tradição. Era capaz de, na mais aparentemente simples afirmação, revelar sua elevada erudição. Artur sabia como ninguém o que Goethe e Shakespeare pensavam do amor, o que Rimbaud e Joyce pensavam da palavra, o que Dante e Milton pensavam de Deus. Em seu programa semanal na TV Senado, “Quem tem medo da música clássica”, Artur ensinava ao público brasileiro a maravilhosa arte de se tornar um amante da Grande música. O então senador pelo Estado do Rio de Janeiro iniciou vários neófitos a, pacientemente, prepararem seus ouvidos e seus espíritos para o prazer inigualável que a Música proporciona. Seremos todos eternamente gratos a ele.Pensemos no que a vida brasileira se converteu.Abrimos os jornais e nada de Carpeaux, Quintana ou Amoroso Lima, mas Veríssimo, Jabor ou Paulo Coelho. Nos telejornais já não temos mais os comentários de Paulo Francis, mas sim de seu simulacro, Arnaldo Jabor. Vamos às livrarias e onde estão Proust, Wilde, Eliot? Provavelmente num canto ou estante reduzida, enquanto nas vitrines e prateleiras de destaque estão Rowling, Gasparetto, Edir Macedo e os “clássicos” da auto-ajuda. Ligamos os rádios e nada de Villa-Lobos, Tom, Ari ou Noel, mas sim coisas inomináveis. Agora ligaremos a televisão e não mais encontraremos refúgio no programa semanal de Artur. Somos todos destinados a ser eternamente reféns das massas bestializadas que querem devorar os celebres infanticidas, erigidos a Geni da nossa mui justa e comovida pátria. Nossa sociedade não conseguiu substituir as grandes mentes que se foram por outras tão capazes. Isto é um sinal de decrepitude cultural. Em meio a essa miséria – miséria intelectual, política, social e, principalmente, espiritual – Artur se tornou um solitário. Um “Wanderer”, o andarilho de Goethe e Schubert.Era por esses e outro motivos que ele, em uma de suas últimas crônicas, pedia perdão a nós, crianças. Artur estava errado. Não é ele nem sua geração que devem pedir perdão a nós, crianças. Mas sim nós, crianças, é que devemos pedir perdão a eles por deixarmos o mundo fazer de nós meros receptáculos, latas de lixo onde se deposita todo o dejeto da sociedade.

Perdão Artur.

Kyrie eleison.Um grande escritor brasileiro, Euclides da Cunha – a quem, tenho certeza, Artur admirava – despediu-se de seu mestre espiritual, o escritor francês Victor Hugo, com uma bela poesia. Eu que, infelizmente, não sou um artesão da palavra como Euclides e Hugo, despeço-me do Mestre com a poesia de Euclides."O Mestre Não choremo-lo não... se essas dores supremas Geram sombria noite em nosso ser magoado Em nossa alma se arqueia Cada folha imortal de seus imensos poemas Como um céu constelado Desses eternos sóis: o canto, a estrofe e a idéia."Eu, materialista e cético, invejo aqueles que agora, lá nas alturas insondáveis pelo espírito humano, - altura em cuja existência Artur acreditava firmemente – poderão conviver com o sorriso amável, a voz doce e o olhar cheio de beleza de Artur da Távola.

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