11 de abril de 2008

Cultura para poucos

A história da música brasileira, claro, não começa com a Bossa Nova. Mas, para Nelson Motta, sim. No momento em que curte o sucesso de seu mais novo livro Vale Tudo: Tim Maia, a Bossa Nova faz 50 anos, é ele mesmo quem afirma que está comemorando 50 anos de completa mudança de rumo em sua vida. “Antes eu nem podia dizer que gostava de música”. E foi só ouvir Chega de Saudade, na voz de João Gilberto, para sentir que havia algo de muito novo naquela batida. “Não saberia dizer, naquele momento, se detestei ou amei. Só sei que fiquei tonto”.

Esse foi o início de uma longa história contada pelo próprio Nelson Motta, num bate-papo no Gacemss, na terça, dia 8. Na platéia, centenas de alunos das faculdades de Letras e de Jornalismo de Volta Redonda, jornalistas, músicos, professores, escritores. Muita gente ali não viveu esse grande momento da música brasileira, aliás nem eu, mas, se bem informados, sabem da importância da Bossa Nova para a afirmação da cultura nacional até internacionalmente. E, contada por quem vivenciou aquele rebuliço, melhor ainda. Foi papo para sair do teatro babando.

A Bossa Nova de Tom, Vinícius, João e outros magos da música foi apenas o começo. Nelson passeou pela vida musical do país, com a Tropicália de Caetano, Gil e cia; os festivais que lotavam o Maracanãzinho e eram febre nacional; a ditadura militar, que pensava que censurava o pensamento artístico; as discotecas e As Frenéticas; o rock da década de 80; música popular brasileira, do fino ao lixo. E sua vida esteve intimamente ligada a todos esses momentos, como jornalista, letrista, produtor, escritor.

Impossível não observar aqueles para quem Nelson falava grego. “Gente acostumada com cultura tapa-buraco nem sabe o que está fazendo aqui”, disse uma aluna-quase-colega. Eu mesma orientei alguns dos meus alunos do curso de Jornalismo do UniFOA a lerem sobre o escritor e sua trajetória profissional, antes de se animarem a assistir à palestra. Daria para arriscar uma conta nos dedos de quantos ali naquela platéia um dia ouviu um disco de Tom Jobim, João Gilberto, Nara Leão, ou sabe alguma coisa sobre eles, assim, por alto. Ouvi, dias antes da palestra, alguém perguntar “Quem é Nelson Motta?”. Ui, dureza...

Nos tempos dele, do palestrante da noite, estudante de faculdade saía às ruas em passeata, era politizado, conhecia o país, seus governantes, tinha opinião. Experimente fazer uma pesquisa com jovens universitários e saber se alguém se lembra que 2008 é ano eleitoral. E prepare-se para as respostas. Garanto que não estou cometendo nenhum exagero. Vi e escutei vozes confessas de total incompreensão após a palestra.

Mas, voltemos ao bate-papo memorável de Nelson Motta. Como disse aí acima, não presenciei nada dos tempos de Bossa Nova e coisa e tal. Nasci em 1968 - não faça as contas, pô! - e, só na adolescência comecei a me dar conta do que ocorreu neste país na década de 60, principalmente no ano em que nasci. “Minha geração passou os que deveriam ser seus melhores dias durante a ditadura militar. Dos 20 aos 40 anos, tempo de maior produtividade em nossas vidas, ficamos entalados, sozinhos. Nossos amigos, grandes artistas, exilados, e a cultura do país em compasso de espera. Essa é a parte triste da nossa história, da história da minha vida”, frisou Nelson.

Para ele, não houve ao longo de todos esses anos uma queda na qualidade musical dos compositores brasileiros, ao contrário. Houve, sim, um boom de produções vindas de todos os cantos, em todos os estilos, para todas as idades. “A questão a ser pensada é que quanto mais música se produz, maior a possibilidade de a gente se deparar com coisa ruim. E olha que tem muita gente boa no cenário atualmente”, aposta Nelson, respondendo a uma pergunta da platéia. Tem, sim, é verdade. O que mudou foi a oportunidade, foram as facilidades tecnológicas. “Qualquer pessoa pode gravar o próprio CD hoje em dia, num estúdio caseiro ou de pequeno porte”, atesta.

O que ele não disse – ou o que eu esperava que ele dissesse – é que não se faz música, não se faz cultura, sem cultura. Enquanto nós, brasileiros, continuarmos a nos contentar com operações tapa-buraco, continuaremos a incentivar a produção comercial, de música pobre, de letras que rimam sabão com limão. E pior, veremos, cada vez mais, milhares de pessoas gostando, cantando e achando lindo. Se não se oferece conhecimento cultural, como exigir um mínimo de qualidade de quem se aventura a produzir?
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3 comentários:

cintia sibucs disse...

depois vc olha meu blog... tem um "mimo" pra vc lá!

bjooooo

Frávia, a dona do brog disse...

Copiando Sibucs,mimo pra ti no meu brog!
Beijo

cintia sibucs disse...

Eu fiquei enlouquecida para participar dessa comemoração. Digo comemoração, pois Nelson Motta por aqui é sinonimo de festa!
Mas infelizmente tive prova na faculdade... e no mesmo horário.

E hoje aqui no serviço, ouvi de um colega que foi ao Gacemss assistir ao show do Rick Vallen, que a apresentação foi fraca e que "...ele cantou tanta coisa velha, q o Teatro estava cheirado a mofo! Só as velhas que gostaram, né?!" Infelizmente são essas pessoas que não conhecem - e nem querem conhecer - Nelson Motta.
(Em tempo: Rick cantou alguns clássicos da MPB nesse show.)