14 de janeiro de 2008

O ano do Sim

Não gosto de barulho. Nem de ruídos incômodos. Amigos mais próximos chamam a isso de idade avançada. Pode ser, mas há tipos de sons que sinceramente me fazem mal. Buzina nervosa e insistente; televisão alta na casa do vizinho de madrugada; funk e pagode em qualquer situação; água pingando; choro de criança fazendo pirraça; conversa em ônibus; telefone que toca quando estou trabalhando. Argh! Tudo isso me tira do sério.

E diante de tanta coisa desagradável que se ouve no dia-a-dia, enfim a salvação. Meus ouvidos se sentiram plenos de felicidade ao conhecer o CD Sim, de Vanessa da Mata. Sim, simplesmente irreparável. 2007 pra mim foi embalado por essa voz melódica, suave, delicada, porém vibrante, num disco que marcou definitivamente a carreira dessa mato-grossense que aos 15 anos já cantava em bares de Uberlândia, em Minas Gerais.

Conheci no início do ano a música “Boa Sorte/Good Luck” – num vídeo clip exibido pelo Fantástico. Nela, Vanessa canta com Ben Harper o fim de uma relação regada a expectativas desleais. Admiradora de Vanessa desde o primeiro CD, lançado em 2002, curti muito o samba “Não me deixe só”, que virou hit nas pistas de dança, após uma remixagem de Ramilson Maia. Não esperava menos.

Vanessa da Mata chegou ao topo devagar, mas sem rodeios. Disse logo a que veio quando conheceu Chico César, em 1997, e com ele compôs “A força que nunca seca”, sucesso na voz de Maria Bethânia. Depois disso, teve várias outras composições gravadas, até estar pronta para encarar a carreira solo. Ainda bem que não demorou. Fazem muito bem aos ouvidos e para a cultura brasileira essas descobertas de talentos tão raros em tempos de música comercial, fabricada para fazer muito barulho e rebolar bundas país afora.

Sim é uma produção super madura. Assinado por Mário Caldato e Kassin, foi gravado entre a Jamaica e o Brasil. Das 13 faixas, cinco tem a participação de Sly & Robbie, dois ícones da música jamaicana. Além de Ben Harper na faixa “Boa sorte”, conta também com as participações ilustres de João Donato, Wilson das Neves, Don Chacal e uma turma de gente jovem muito boa, como o baterista Pupillo (Nação Zumbi) e os guitarristas Fernando Catatau (Cidadão Instigado), Pedro Sá e Davi Moraes.

Enquanto escrevo ouço a faixa “Meu Deus”. Não é por nada, mas penso que somente uma mulher conseguiria compor algo com esse sentido. Um homem bonito assim/O que quer de mim/O que ele fará comigo/(...)/Meu Deus!/ Ave Maria!/ Se ele não é um dos seus/Ninguém mais seria. Só ouvindo, de preferência sozinha e com o volume bem alto, é possível sentir nota a nota, verso a verso, o que diz a alma feminina.

Já “Você vai me destruir” lembra os bolerões eternizados por Ângela Maria. Aqueles que cantam histórias de amor mal acabadas e muito, muito sofridas. Está acabando o amor/Você ainda não veio/Não disse não ligou/Se vem viver comigo/(...)/Você vai me destruir/Como uma faca cortando as etapas/Furando ao redor/Me indignando me enchendo de tédio/Roubando meu ar/Me deixa só e depois não consegue/Não me satisfaz. Os que consideram o estilo Ângela brega, taí a Vanessa cantando a mesma dor de cotovelo, com uma roupagem moderníssima.

Mas os versos mais marcantes de todas as composições de Vanessa nesse CD, pra mim, foi Tudo o que quer de mim/Irreais expectativas desleais. O que na música trata-se do fim de uma relação, no meu dia-a-dia e no de muita gente pode ser coisa pra lá de comum. É só pensar um pouquinho e a gente percebe um monte de conviventes cheios de expectativas desleais a nossa volta. Pensa aí. É da vida, é rotineiro, e ninguém nunca cantou, não como Vanessa da Mata.

Enfim, corre 2008 e estou aqui falando do já longínquo 2007. Sabe porquê? Esperança de que nos próximos 12 meses muitas outras Vanessas sejam descobertas nesse cenário enorme, nesse Brasil cheio de talentos sufocados ou escondidos pela música fabricada apenas para vender barulho em mega shows mega produzidos. Vanessa, Sim, faz bem aos ouvidos. Simplesmente.

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