16 de novembro de 2007

Frankenshakespeare

Por Ana Beatriz Guerra

Certa vez, recebi um impresso (caseiro) de um poema de William Shakespeare. Até aí, ótimo, se o poema fosse mesmo do Bardo. Não, não era. Tratava-se de um texto entitulado "Aprender", atribuído a Shakespeare, mas cujo original remonta a uma Veronica Shoffstall, que escreveu o poema "Depois de um tempo" em 1971. Pode ser ignorância minha, mas não sei quem é ou foi Veronica Shoffstall. Nem o Santo Google me salvou dessa. Quem souber, por favor, deixe um comentário abaixo.

O texto em nome de Sir William, marcado por resquícios de auto-ajuda barata, não se parece nem remotamente com nada que Shakespeare tenha escrito em toda a sua vida. Já na primeira linha, qualquer bom leitor seria capaz de concluir que trata-se de um texto apócrifo, ou "texto-Frankenstein", como é chamado modernamente. Um típico fruto do Ctrl+C, Ctrl+V dos nossos tempos, o resultado final da série de colagens e adaptações mais parece um milkshake de Shakespeare: pegue os piores momentos do Bardo (se é que existe algum), bata no liqüidificador com leite e sua fruta predileta e voilà!, eis um autêntico Frankenshakespeare para analfabeto funcional nenhum botar defeito. Nham!

O resultado fica muito parecido com a brincadeira (de mau gosto) do Shakespeare Sonnet Shake-Up: você seleciona suas estrofes preferidas, que já vêm organizadas por rimas,e, em questão de poucos minutos, tem o seu próprio soneto shakespeareano. Não dá o menor trabalho ser poeta. Assim como não custa nada recortar e colar um texto que se acha bonito, certo?

O que muito me admira é que recebo com freqüência os tais textos apócrifos, pragas tão recorrentes quanto os arquivos .pps com anjos, flores, bebês, beijos e as correntes que nos ameaçam de impotência, de pessoas com um certo nível de escolaridade, que deveriam ter o discernimento para perceber quando um texto é de um tal autor e quando não é. Uma das primeiras conclusões que tiro é que ninguém lê Shakespeare ultimamente. Os sonetos e peças que ele nos deixou de herança aos poucos vão se apagando na linha do tempo, em profunda contradição com a quantidade de livros e sites reproduzindo seus textos ou falando a respeito de suas obras. É domínio público, mas o público não se interessa.

A falta de leitura do brasileiro é tamanha que, além de ser incapaz de diferenciar as nuances de estilo de um autor para o outro, ele ainda desenvolve essa necessidade de entupir a caixa postal alheia com tais monstruosidades, sem sequer pesquisar a origem, só porque achou o texto interessante. Gente, no mínimo do mínimo, isso rende plágio. Fere os direitos autorais e ofende a inteligência de quem ainda se dá ao trabalho de ler. Imaginem... O que é ler na era digital? Engraçado que fica muito aquela coisa de "vale o que está escrito": você recebe o e-mail que já rodou meio mundo, então quem é você para contestar a autoria de um texto, se ninguém mais o fez? Se dizem que é Shakespeare, então deve ser mesmo... Não faz muita diferença. É alguém famoso. Tipo, eu não conheço, nem tenho a menor sensibilidade para procurar saber quem é, mas deu um pouco de esperança para a minha tarde medíocre, então tá valendo.

Nada contra auto-ajuda ou mensagens motivacionais, que fique claro. Tá, não sou exatamente uma leitora de auto-ajuda (olhem só o escândalo: "Escritora da novíssima geração admite: eu leio Deepak Chopra"), mas gosto de frases positivas de quando em vez. E Deepak Chopra é legal, se você curte os assuntos que ele aborda. Só que partir daí e passar a gostar daqueles arquivos .pps, já é uma longa trajetória. Minha biblioteca Era de Aquário se resume a um exemplar de "O segredo", alguns volumes que versam sobre intuição e criatividade feminina e livros de yoga e budismo, filosofias das quais sou grande admiradora e praticante há muitos anos. Não confundam as coisas. Para tudo tem limite nessa vida, até para o positive thinking. Até para os Frankensteins na caixa do correio.

Na era do hipertexto, o texto apócrifo é o pesadelo de todo escritor. Ao mesmo tempo, é uma prova incontestável de sua popularidade. Ninguém copia um texto que considere medíocre. E, ao que parece, ninguém adapta um texto que considere medíocre também. O problema é que a adaptação da adaptação tenta reduzir a mensagem original ao nível da mediocridade do leitor. E consegue, só multiplicando a falta de entendimento, popularizando cada vez mais o analfabetismo de todos os dias. Cada um vai recortando e colando o clichê que acha de seu interesse, até que o texto perde sua identidade inicial e vira um pastiche muito muquirana. E não se enganem que só Shakespeare, por ser um clássico, sofre disso. Acontece também com muitos contemporâneos, como Arnaldo Jabor, Martha Medeiros, Luís Fernando Veríssimo, Alexandre Inagaki, só para citar alguns, curiosamente e não coincidentemente, todos cronistas, que têm maior contato com o grande público.

Por ser "recortável" e "colável", o texto na internet pode perder sua autenticidade, sua originalidade, seu dono. É o mesmo tipo de pensamento que gera os downloads ilegais, que fere a autoria dos artistas, que populariza o crime e faz com que perca a gravidade. Se todo mundo faz, passa a ser legítimo.

Não estou julgando a qualidade dos textos em si, mas questionando o comportamento dos internautas, que, só por ter acesso fácil ao conhecimento, não verificam a veracidade das informações, muito menos absorvem o que lhes é estranho. Mas não culpem o mensageiro. Quem é o primeiro a adulterar, a transformar uma criação numa peça anônima? Pior. O que leva pessoas inteligentes e educadas a perpetuar um comportamento desse tipo? O jeito, então, é passar a duvidar da inteligência de todo mundo?

Algumas ferramentas tentam proteger os direitos autorais da praticidade do hipertexto, mas elas ainda apresentam suas fragilidades. Por exemplo, existem códigos java que protegem os textos da cópia, do clique com o botão direito do mouse que, porém, são facilmente burláveis por qualquer pessoa que entenda um pouco mais de programação. Há o Copyscape, que varre a internet atrás de cópias não-autorizadas do seu site. E, ainda, existe o Creative Commons, que tenta estabelecer novas regras, códigos para novas necessidades. Pode-se então copiar um texto, desde que se atribua a ele os devidos créditos.

A questão da autoria é um papo longo e nem um pouco original. O que fica, entretanto, é a indignação. Partindo de uma autora, fica parecendo murro em ponta de faca, mas esse tipo de adulteração tem muito a ver com nossa herança de deseducação mesmo. Não chega nem a ser a falta dela. É a falta que ela não faz para muita gente.
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3 comentários:

Vicente Melo disse...

A rede é uma estrada de muitas pistas. Ótimo, é um espaço próprio para a democracia. A anarquia cobra um preço. Devemos arcar com ele e colaborar... Esse texto, por exemplo, foi uma grande ajuda. Parabéns!

cintia sibucs disse...

esses ctrl+c e ctrl+v...
vc ñ tem noção do q eu escuto da faculdade por causa deles quando os professores pegam uns trabalhos para corrigir... srrsr!
aliás, deve ter noção sim! vc já deve ter pego um deses nas mãos, heim?! 'fêssora!

POESIA EM VOLTA disse...

Eu já recebi um texto de uma escritora, com frases que ela dizia ser de sua autoria. Eu respondi, como recebo eu respondo, e informei-a que era bom colocar o autor e que duas delas eram de Drummond. Ela tb respondeu(!), pasma, que não sabia que eram dele, ela apenas "encaminhou' para mim o que tinha achado de bonito na net. Pode??? mas que lê, corre o risco de saber de quem é... ótimo texto! bjs