12 de setembro de 2007

Segunda Vida

Por Ana Beatriz Guerra

Então minha curiosidade me levou até o Second Life...
Engana-se quem pensa que o tal jogo vai ser tão "hype" aqui no Brasil quanto o Orkut foi há algum tempo atrás. O Second Life não vai virarconversa de bar, apesar de algumas multinacionais e empresas de comunicação tupiniquins já investirem seus logotipos no mundinho virtual.
Até alguns meses, só quem tinha um certo trânsito em línguas estrangeiras, especialmente inglês, poderia fazer uso do programa. Mas agora já existe o Second Life em português e, em questão de poucos meses ausente do jogo, pude constatar diferenças gritantes.
A Copacabana de lá é povoada por uns seres tão estranhos quanto a de verdade. A Copa de lá tem bares que soltam bolhas de sabão pelas paredes. No Copacabana Palace de lá não existe foyer, é tudo branco, com espaços ainda a preencher, pontos a ligar.
Os papos em português são totalmente vazios. Não se fala português, na verdade. Fala-se internetês o tempo inteiro. E, em poucos minutos, pelo nível de complexidade das conversas, dá para perceber o abismo educacional dos brasileiros médios em relação aos estrangeiros médios que usam o programa. O Brasil de lá não é hype, só acha que é.
O impulso básico mesmo para começar a brincadeira é a curiosidade. Como deve ser um mundo, como dizem os desenvolvedores, "imaginado e criado por seus habitantes"?
Virtualmente falando, pode-se fazer qualquer coisa dentro do Second Life. Desde que você entenda algo de design. A plataforma é pesada e requer máquinas com processamento mais rápido e bastante memória. Enquanto se roda o programa, é bom não abrir janelas de outros aplicativos. Aliás, você nem vai querer isso. Porque a segunda vida pode ser bastante sedutora e envolvente.
Você começa criando um login e senha na web para depois fazer o download (gratuito) do programa. Não é preciso pagar para usar o Second Life, mas os usuários premium têm direito a 300 Linden Dollars (a moeda "local") por mês para gastar como for, seja comprando terrenos ou uma xícara de expresso. Só me digam depois por que cargas d'água ter um terreno que não existe ou tomar um expresso sem poder sentir o sabor.
O login é o nome do seu "avatar", a personagem que você vai assumir lá dentro.Prefiro dizer "boneco" ou "boneca", porque, montando o meu avatar, me senti menina de novo, recortando bonecas e roupinhas de papel. A idéia é a mesma, só que muito mais sofisticada e muito menos imaginativa.
Depois que você cria o seu boneco e "nasce" para a sua "segunda vida",vai parar num território neutro onde existem avatares que vão responder a todas as suas perguntas de novato. E é aí que começam os seus problemas. É aí que termina o seu livre arbítrio. Porque você descobre que existem códigos de conduta. Porque você descobre que, para fazer qualquer coisa, essa coisa precisa ser pré-definida pelo programa. É aí que todo sonho socialista termina.
Todos ganham uma aparência padrão, de acordo com o sexo escolhido. É aí que todo sonho de igualdade termina. Sua aparência pode ser configurada de acordo com o seu gosto. Gastei horas, ou melhor, dias só adaptando a aparência da minha boneca. Tentei fazê-la parecida comigo - em vão -, porque, na minha cabeça, não teria nada a esconder, não gostaria de ser, numa segunda vida, nada diferente do que sou na primeira. É uma descoberta e tanto você saber que tem confiança o suficiente para não querer ser mais ninguém. Tudo bem, mas o quanto eu não perderia se não fosse alguém diferente? Que tal uma personalidade diametralmente diferente da minha?
Foi aí que resolvi que minha boneca seria dançarina num clube de strip-tease. Talvez eu tenha sido influenciada por uma francesa cuja boneca tinha a mesma profissão."Você vai precisar de um avatar mais bonito", a garota me disse. E eu até entendi.
Todo mundo no Second Life, tirando os novatos, tem aquele jeito de personagem de mangá: olhos grandes, cabelos ultracoloridos, roupas bem ajustadas, corpo torneado. A obssessão pela beleza é nítida. São poucos os que escolhem aparências diferentes, como de bicho, monstro ou robô, mas, ainda assim, bichos, monstros e robôs de vídeogames e desenhos animados. Fui percebendo que eu não teria muita mobilidade se continuasse "feia".
Para ter um corpo mais bonito, eu precisaria de dinheiro. Porque no Second Life tudo é opcional: cabelo, pele, roupas e até os órgãos sexuais. Minha boneca até bem pouco tempo não tinha nem mamilos nem vulva. Rodei todo o mundo atrás de uma pele "bonita" (entenda-se próxima do real) e gratuita.
É incrível como nos poucos meses que passei sem jogar tudo foi mudando. Há especulação imobiliária no mundo virtual. Lugares que existiam num determinado ponto não existem mais. As mudanças são tão rápidas quanto os pensamentos. E, com um pouco de lábia, consegue-se tudo, todas as dicas para uma melhor circulação nesse universo estranho.
Descobri, por exemplo, que se ganha dinheiro virtual ficando alguns minutos sentado numa cadeira, esfregando o "chão" ou panfletando notinhas de eventos. Os poucos Linden Dollars acumulados nessas atividades rendem pequenos prazeres como sapatos novos.
Se você quiser radicalizar, pode passar 300 minutos sentada para ter o corpo igual ao da Tyra Banks. E com igual quero dizer idêntico mesmo, existem lojas onde você pode comprar um dublê de corpo, desde o da Avril Lavigne até o da Sophia Loren. Nova, é bom frisar. Porque não existe gente velha no Second Life, andei observando. Ou doentes. Uma boneca mais rechonchuda teve dificuldade em encontrar um par para dançar dia desses, numa ilha perdida do "Japão".




Será que então este é o espaço para exercitar os maiores sonhos impossíveis da humanidade, como ter um corpo perfeito, não envelhecer e não morrer? Talvez, se você achar que um monte de pixels é a perfeição...
Será então que este é o espaço para exercitar todos os seus medos e preconceitos antes de ser banido?
O que atrai e repudia e amedronta no Second Life é a bizarra semelhança com a realidade. Quantas vezes já não me vi em minhas atividades diárias achando que estava mesmo numa simulação de computador... Quanto tempo as pessoas não passam sem ser elas mesmas?
E eu sigo percorrendo aquelas ruas falsas em terceira dimensão.
Minha boneca já teve muitos pretendentes, ficou presa numa gaiola, flutuou numa cadeira inflável, voou, teletransportou-se, comprou vestidos vintage com um clique no botão direito, fantasiou-se de Mulher Maravilha, fez e aconteceu. E, do outro lado da tela, estava eu, minha primeira vida suspensa.
O que chama a atenção é que, mesmo num espaço que convida à brincadeira, as pessoas, ou melhor, os avatares se levam muito a sério. Transporta-se para o mundo virtual os mesmos pré-conceitos, falhas e inseguranças do planeta presente, como se nem por trinta minutos se pudesse escolher ser outra pessoa só por diversão. Como se tudo tivesse que ser um grande compromisso. Como se não existissem válvulas de escape. Para alguns avatares, certamente não. Para a minha boneca, bom, ela vai continuar por lá enquanto tiver graça.

Um comentário:

cintia sibucs disse...

nossa, q loucura! confesso que me deu certa vontade de experimentar essa second life. já vi esse programa instalado em um dos computadores da agencia, mas não imaginava do que se tratava!
me parece loucura, um lugar que vc vive como se fosse real - mas não é! muitas pessoas se transportam mesmo e acabam vivendo aquela vida, ficando viciados.
acredito que essa vida de avatares seja o próximo mal do século...

bjs!
~cin~


vc me deve vááárias visitas, heim?!